Memorias Postumas de Braz Cubas

MEMÓRIAS PÓSTHUMAS DE BRAZ CUBAS

POR MACHADO DE ASSIS

RIO DE JANEIRO

TYPOGRAPHIA NACIONAL

1881

AO LEITOR

Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o escripto para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa, na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a fórma livre de um Sterne, de um Lamb, ou de um de Maistre, não sei se lhe metti algumas rabugens de pessimismo. Póde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da galhofa e a tinta da melancholia; e não é difficil antever o que poderá sair desse connubio. Accresce que a gente grave achará no livro umas apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achará nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos graves e do amor dos frivolos, que são as duas columnas maximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinião, e o meio efficaz para isso é fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessario ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

BRAZ CUBAS.

                           AO VERME

                              QUE

                 PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES

                        DO MEU CADAVER

                            DEDICO

                    COMO SAUDOSA LEMBRANÇA

                             ESTAS

                      MEMÓRIAS PÓSTHUMAS

CAPITULO I

Obito do autor

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a minha morte. Supposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adoptar differente methodo: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escripto ficaria assim mais galante e mais novo. Moysés, que tambem contou a sua morte, não a poz no introito, mas no cabo: differença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei ás duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem annuncios. Accresce que chovia–peneirava–uma chuvinha miuda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora a intercalar esta engenhosa idéa no discurso que proferiu á beira de minha cova:–«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe róe á natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso illustre finado.»

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apolices que lhe deixei. E foi assim que cheguei á clausula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ancias nem as duvidas do moço principe, mas pausado e tropego, como quem se retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,–minha irmã Sabina, casada com o Cotrim,–a filha, um lyrio do valle,–e… Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anonyma, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, epileptica. Nem o meu óbito era cousa altamente dramatica… Um solteirão que expira aos sessenta e quatro annos, não parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De pé, á cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crêr na minha extincção.

–Morto! morto! dizia comsigo.

E a imaginação della, como as cegonhas que um illustre viajante viu desferirem o vôo desde o Illysso ás ribas africanas, sem embargo das ruinas e dos tempos,–a imaginação dessa senhora tambem voou por sobre os destroços presentes até ás ribas de uma Africa juvenil… Deixal-a ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente, ouvindo os soluços das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chacara, e o som estridulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fóra, á porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha, esvaia-se-me a consciencia, eu descia á immobilidade physica e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéa grandiosa e util, a causa da minha morte, é possivel que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe summariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.

CAPITULO II

O emplasto

Com effeito, um dia de manhã, estando a passear na chacara, pendurou-se-me uma idéa no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possivel crer. Eu deixei-me estar a contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a fórma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa idéa era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica humanidade. Na petição de privilegio que então redigi, chamei a attenção do governo para esse resultado, verdadeiramente christão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam resultar da distribuição de um producto de tamanhos e tão profundos effeitos, Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas caixinhas do remedio, estas tres palavras: emplasto Braz Cubas. Para que negal-o? Eu tinha a paixão do arruido, do cartaz, do foguete de lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porém que esse talento me hão de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha idéa trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico, outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sêde de nomeada. Digamos:–amor da gloria.

Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da gloria temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a gloria eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feição.

Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto.

CAPITULO III

Genealogia

Mas, já que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto esboço genealogico.

O fundador da minha familia foi um certo Damião Cubas, que floreceu na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade, se sómente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a serie de meus avós–dos avós que a minha familia sempre confessou–, porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei conde da Cunha.

Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, allegava meu pae, bisneto do Damião, que o dito appellido fôra dado a um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da façanha que praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de imaginação; escapou á tanoaria nas azas de um calembour. Era um bom caracter meu pae, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva notar que elle não recorreu á inventiva, senão depois de experimentar a falsificação; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu famoso homonymo, o capitão-mór Braz Cubas, que fundou a villa de S. Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Braz. Oppoz-se-lhe porém a familia do capitão-mór; e foi então que elle imaginou as tresentas cubas mouriscas.

Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia, por exemplo, o lyrio do valle, que é a flor das damas do seu tempo; vive o pae, o Cotrim, um sujeito que… Mas não anticipemos os successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.

CAPITULO IV

A idéa fixa

A minha idéa, depois de tantas cabriolas, constituira-se idéa fixa. Deus te livre, leitor, de uma idéa fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéa fixa da unidade italiana que o matou. Verdade é que o Bismark não morreu; mas, cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira. Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro banana,–ou «uma abobora» como lhe chamou Seneca, e um Tito, que mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos, e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi o «abobora» de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a lyrio, tambem não ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sabio.

Viva pois a historia, a voluvel historia que dá para tudo; e, tornando á idéa fixa, direi que é ella a que faz os varões fortes e os doudos; a idéa mobil, vaga ou furta-cor é a que faz os Claudios,–formula Suetonio.

Era fixa a minha idéa, fixa como… Não me occorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja dahi a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegámos á parte narrativa destas memorias. Lá iremos. Creio que prefere a anecdota á reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que este livro é escripto com pachorra, com a pachorra de um homem já desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que não edifica nem destróe, não inflamma nem regéla, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.

Vamos lá; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão do Augsburgo; pela minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéa de que Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto aos inglezes o emplasto Braz Cubas. Não se riam dessa victoria commum da pharmacia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam á sombra daquella, com ella cahem, e não poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, é como a arraia-miuda, que se acolhia á sombra do castello-feudal; cahiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castellã… Não, a comparação não presta.

CAPITULO V

Em que apparece a orelha de uma senhora

Vae se não quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a idéa fixa dos doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e não é deante de tão excelso expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe á eternidade. Sabem ja que morri n’uma sexta feira, dia aziago, e creio haver provado que foi a minha invenção que me matou. Ha demonstrações menos lúcidas e não menos triumphantes.

Não era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces de uma invenção pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma instituição politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e lá se ia tudo. Um sopro de ar foi portanto o meu grão de arêa de Cromwell. Assim corre a sorte dos homens.

Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do primeiro capitulo, a tal, cuja imaginação á semelhança das cegonhas do Illysso… Tinha então 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina. Imagine o leitor que nos amámos, ella e eu, muitos annos antes, e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar á porta da alcova…

CAPITULO VI

Chimène, qui l’eut dit?–Rodrigue, qui l’eut cru?

Vejo-a assomar á porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto, e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida pela presença de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia, contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto. Havia já dous annos que nos não viamos; e eu via-a agora não qual era, mas qual fora**, quaes foramos ambos, porque um Ezechias mysterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de pó, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que tempo, que é o ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples saudade.

Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer.

Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa saber é que Virgilia–chamava-se Virgilia–entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli, vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados. Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n’uma festa de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.

–Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.–Ora, defuntos! respondeu Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:–Ando a ver se ponho os vadios para a rua.

Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada.

–Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.

E vendo o relogio:

–Jesus! são tres horas. Vou-me embora.

–Já?

–Já; virei amanhã ou depois.

–Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras…

–Sua mana?

–Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado.

Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com gravidade:

–Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas, virei com o Nhonhô.

Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao filho:

–Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer fallar para fazer crer que está á morte.

Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos, casualmente, n’uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados, vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião…

Era o meu delirio que começava.

CAPITULO VII

O delirio

Que me conste, ainda ninguem relatou o seu proprio delirio; faço-o eu, e a sciencia m’o agradecerá. Se o leitor não é dado á contemplação destes phenomenos mentaes, póde saltar o capitulo; vá direito á narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinez, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na Summa Theologica de S. Thomaz, impressa n’um volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéa esta que me deu ao corpo a mais completa immobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguem as descruzava (Virgilia de certo), porque a attitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituido á fórma humana, vi chegar um hippopotamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança, mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogal-o, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

–Engana-se, replicou o animal, nós vamos á origem dos seculos.

Insinuei que deveria ser muitissimo longe; mas o hippopotamo não me entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas cousas; e, perguntando-lhe, visto que elle fallava, se era descendente do cavallo de Achilles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dous quadrupedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir á ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas taes ou quaes cocegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos seculos, se era tão mysteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consummação dos mesmos seculos; tudo isto reflexões de um cerebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio augmentava com a jornada, e que chegou uma occasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com effeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava n’uma planicie branca de neve, com uma ou outra montanha de neve, vegetação de neve, e varios animaes grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei fallar, mas apenas pude grunhir esta pergunta anciosa:

–Onde estamos?

–Já passámos o Eden.

–Bem; paremos na tenda de Abrahão.

–Mas se nós caminhamos para traz! redarguiu motejando a minha cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incommodo, a conducção violenta, e o resultado impalpavel. E depois–cogitações de enfermo–dado que chegassemos ao fim indicado, não era impossivel que os seculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão seculares como elles. Em quanto assim pensava, iamos devorando caminho, e a planicie voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranquillamente em torno de mim. Olhar sómente; nada vi, além da immensa brancura da neve, que desta vez invadira o proprio ceu*, até alli azul. Talvez, a espaços, me apparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O silencio daquella região era egual ao do sepulchro: dissera-se que a vida das cousas ficára estupida deante do homem.

Cahiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto immenso, uma figura de mulher me appareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das fórmas selvaticas, e tudo escapava á comprehensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita voz diaphano. Estupefacto, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava; curiosidade de delirio.

–Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o effeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.

–Não te assustes, disse ella, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se affirma. Vives: não quero outro flagello.

–Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existencia.

–Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dôr e o vinho da miseria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência rehouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabellos e levantou-me ao ar, como se fôra uma simples pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorsão violenta, nenhuma expressão de odio ou ferocidade; a feição unica, geral, completa, era a da impassibilidade egoista, a da eterna surdez, a da vontade immovel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais debil e descrepito dos seres.

–Entendeste-me? disse ella, no fim de algum tempo de mutua contemplação.

–Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fabula. Estou sonhando, de certo, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a razão ausente não póde reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagello, nem, como tu, traz esse rosto indifferente, como o sepulchro. E porque Pandora?

–Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

–Sim; o teu olhar fascina-me.

–Creio; eu não sou somente a vida; sou tambem a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra echoou, como um trovão, naquelle immenso valle, afigurou-se-me que era o ultimo som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição subita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos supplices, e pedi mais alguns annos.

–Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do expectaculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos afflictivo: o alvor do dia, a melancholia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o somno, emfim, o maior beneficio das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

–Viver somente, não te peço mais nada. Quem me poz no coração este amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque te has de golpear a ti mesma, matando-me?

–Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, suppõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoismo, dizes tu? Sim, egoismo, não tenho outra lei. Egoismo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocinio da onça é que ella deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, atravez de um nevoeiro, uma cousa unica. Imagina tu, leitor, uma reducção dos seculos, e um desfilar de todos elles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos imperios, a guerra dos appetites e dos odios, a destruição reciproca dos seres e das cousas. Tal era o expectaculo, acerbo e curioso expectaculo. A historia do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a sciencia, porque a sciencia é mais lenta e a imaginação mais vaga, emquanto que o que eu alli via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevel-a seria preciso fixar o relampago. Os seculos desfilavam n’um turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delirio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim,–flagellos e delicias,–desde essa cousa que se chama gloria até essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a miseria, e via a miseria aggravando a debilidade. Ahi vinham a cobiça que devora, a colera que inflamma, a inveja que baba, e a enxada e a penna, humidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancholia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruil-o, como um farrapo. Eram as formas varias de um mal, que ora mordia a viscera, ora mordia o pensamento, e passeiava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia á indifferença, que era um somno sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagellado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atraz de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel, outro de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto precario, com a agulha da imaginação; e essa figura,–nada menos que a chimera da felicidade,–ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ella ria, como um escarneo, e sumia-se, como uma illusão.

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angustia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me puz a rir,–de um riso descompassado e idiota.

–Tens razão, disse eu, a cousa é divertida e vale a pena,–talvez monotona–mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o dia em que fôra concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espectáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida, mas digere-me.

A resposta foi compellir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os seculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham ás gerações, umas tristes, como os Hebreus do captiveiro, outras alegres, como os devassos de Commodo, e todas ellas pontuaes na sepultura. Quiz fugir, mas uma força mysteriosa me retinha os pés; então disse commigo:–«Bem, os seculos vão passando, chegará o meu, e passará tambem, até o ultimo, que me dará a decifração da eternidade.» E fixei os olhos, e continuei a ver as edades, que vinham chegando e passando, já então tranquillo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada seculo trazia a sua porção de sombra e de luz, de apathia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de systemas, de idéas novas, de novas illusões; em cada um delles rebentavam as verduras de uma primavera, e amarelleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendario, fazia-se a historia e a civilisação, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construia o tugurio e o palacio, a rude aldêa e Thebas de cem portas, creava a sciencia, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecanico, philosopho, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia á esphera das nuvens, collaborando assim na obra mysteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancholia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distrahido*, viu emfim chegar o seculo presente, e atraz delle os futuros. Aquelle vinha agil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco diffuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miseravel como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e egual monotonia. Redobrei de attenção; fitei a vista; ia emfim ver o ultimo,–o ultimo!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a comprehensão; ao pé della o relampago seria um seculo. Talvez por isso entraram os objectos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo,–menos o hippopotamo que alli me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era effectivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava á porta da alcova, com uma bola de papel…

CAPITULO VIII

Razão contra Sandice

Já o leitor comprehendeu que era a Razão que voltava á casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:

 La maison est á moi, c'est á vous d'en sortir.

Mas é sestro antigo da Sandice criar amor ás casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, difficilmente lh’a farão despejar. É sestro; não se tira dahi; ha muito que lhe callejou a vergonha. Agora, se advertirmos no immenso numero de casas que occupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amavel peregrina é o terror dos proprietarios. No nosso caso, houve quasi um disturbio á porta do meu cerebro, porque a adventicia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sotão.

–Não, senhora, replicou a Razão, estou cançada de lhe ceder sotãos, cançada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sotão á sala de jantar, dahi á de visitas e ao resto.

–Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mysterio.

–Que mysterio?

–De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.

A Razão poz-se a rir.

–Has de ser sempre a mesma cousa… sempre a mesma cousa… sempre a mesma cousa…

E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fóra; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de fóra, em ar de surriada, e foi andando… foi andando… Provavelmente andará até á consummação dos seculos.

CAPITULO IX

Transição

E vejam agora com que destreza, com que fina arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delirio começou em presença de Virgilia; Virgilia foi o meu grão peccado da juventude; não ha juventude sem meninice; meninice suppõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a attenção pausada do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto de methodo, sendo, como é, uma cousa indispensavel, todavia é melhor tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco á fresca e á solta, como quem não se lhe dá da visinha fronteira, nem do inspector de quarteirão. É como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao dia 20 de Outubro.

CAPITULO X

Naquelle dia…

Naquelle dia, a arvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci; recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos. Não é impossivel que meu pae lhe ouvisse tal declaração; creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratifical-a com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heroe da nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor. Meu tio João, o antigo official de infantaria, achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pae não pôde ouvir sem nauseas; meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava-me conego.

–Conego é o que elle ha de ser, e não digo mais por não parecer orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o destinasse á um bispado… É verdade, um bispado; não é cousa impossivel. Que diz você, mano Bento?

Meu pae respondia a todos que eu seria o que Deus quizesse; e alçava-me ao ar, como se intentasse mostrar-me á cidade e ao mundo; perguntava a todos se eu me parecia com elle, se era intelligente, bonito…

Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar annos depois; ignoro a mór parte dos pormenores daquelle famoso dia. Sei que a visinhança veiu ou mandou comprimentar o recem-nascido, e que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção; e se hão conto os mimos, os beijos, as admirações, as bençãos, é porque, se os contasse, não acabaria mais o capitulo, e é preciso acabal-o.

Item, não posso dizer nada do meu baptizado, porque nada me referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do anuo seguinte, 1806; baptizei-me na egreja de S. Domingos, uma terça feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o coronel Rodrigues de Mattos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas familias do norte e honravam devéras o sangue que lhes corria nas veias, outr’ora derramado na guerra contra Hollanda. Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia com muita graça, ou revelava algum talento precoce, porque não havia pessoa extranha diante de quem me não obrigassem a recital-os.

–Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.

–Meu padrinho? é o coronel Paulo Vaz Lobo Cezar de Andrade e Souza Rodrigues de Mattos; minha madrinha é a Excellentissima Senhora D. Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Mattos.

–É muito esperto o seu menino, commentavam os ouvintes.

–Muito esperto, concordava meu pae; e os olhos babavam-se-lhe de orgulho, e elle espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.

Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar ás cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de páu.–Só só, nhonhô, só só, dizia-me a mucama. E eu, attrahido pelo chocalho de lata, que minha mãe agitava diante de mim, lá ia para a frente, cahe aqui, cahe acolá; e andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.

CAPITULO XI

O menino é pai do homen.

Cresci; e nisso é que a familia não interveiu; cresci naturalmente, como crescem as magnolias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e, com certeza, as magnolias são menos inquietas do que eu era na minha infancia. Um poeta dizia que o menino é pae do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.

Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o maleficio, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por pirraça»; e eu tinha apenas seis annos. Prudencio, um moleque de casa, era o meu cavallo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, á guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e elle obedecia,–algumas vezes gemendo,–mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um–«ai, nhonhô!»–ao que eu retorquia:–«Cala a boca, besta!»–Esconder os chapéos das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabelleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um genio indocil, mas devo crer que eram tambem expressões de um espirito robusto, porque meu pae tinha-me em grande admiração; e se ás vezes me reprehendia, á vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.

Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéos; mas opiniatico, egoista e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéos, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabelleiras.

Outrosim, affeiçoei-me á contemplação da injustiça humana, inclinei-me a attenual-a, a explical-a, a classifical-a por partes, a entendel-a, não segundo um padrão rigido, mas ao sabor das circumstancias e logares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns preceitos e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações, me governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espirito, que a faz viver, para se tornar uma vã formula. De manhã, antes do mingáu, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma grande maldade, e meu pae, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na cara, e exclamava a rir: Ah! bregeiro! ah! bregeiro!

Sim, meu pae adorava-me, tinha-me esse amor sem merito, que é um simples e forte impulso da carne; amor que a razão não contrasta nem rége. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cerebro e muito coração, assaz credula, sinceramente piedosa,–caseira, apezar de bonita, e modesta, apezar de abastada; temente ás trovoadas e ao marido. O marido era na terra o seu deus. Da collaboração dessas duas creaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma cousa boa, era no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio conego fazia ás vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que elle me dava mais liberdade do que ensino, e mais affeição do que emenda; mas meu pae respondia que applicava na minha educação um systema inteiramente superior ao systema usado; e por este modo, sem confundir o irmão, illudia-se a si proprio.

Havia em minha mãe uma sombra de melancholia, que eu herdei, como herdei de meu pae a fatuidade. Os aspectos da vida accrescentaram-lhe a natural tendencia. Tinha coração de mais, uma sensibilidade melindrosa, exigente, doentia.

De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo extranho, o meio domestico. Vimos os paes; vejamos os tios. Um delles, o João, era um homem de lingua solta, vida galante, conversa picaresca. Desde os onze annos entrou a admittir-me ás anecdotas, reaes ou não, eivadas todas de obscenidade ou immundicie. Não me respeitava a adolescencia, como não respeitava a batina do irmão; com a differença que este fugia logo que elle enveredava por assumpto escabroso. Eu não; deixava-me estar, sem entender nada, a principio, depois entendendo, e emfim achando-lhe graça. No fim de certo tempo, quem o procurava era eu; e elle gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu achal-o, no fundo da chacara, no lavadouro, a palestrar com as escravas que batiam roupa; e ahi é que era um desfiar de anecdotas, de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguem podia ouvir, porque o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do tanque, outras fóra, inclinadas sobre as peças de roupa, a batel-as, a ensaboal-as, a torcel-as, iam ouvindo e redarguindo ás pilherias do tio João, e a commental-as de quando em quando com esta palavra:

–Cruz, diabo!… Este sinhô João é o diabo!

Bem differente era o tio conego. Esse tinha muita austeridade e pureza; taes dotes, comtudo, não realçavam um espirito superior, apenas compensavam um espirito mediocre. Não era homem que visse a parte substancial da egreja; via o lado externo, a hierarchia, as preeminencias, as sobrepelizes, as circumflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infracção dos mandamentos. Agora, a tantos annos de distancia, não estou certo se elle poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a historia do symbolo de Nicéa; mas ninguem, nas festas cantadas, sabia melhor o numero e caso das cortezias que se deviam ao officiante. Conego foi a unica ambição de sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observancia das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuia algumas virtudes, em que era exemplar, mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as impôr aos outros.

Não digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa differençava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia, uns dous annos. Outros parentes e alguns intimos não merecem a pena de ser citados; não tivemos uma vida commum, mas intermittente, com grandes claros de separação. O que importa é a expressão geral do meio domestico, e essa ahi fica indicada,–vulgaridade de caracteres, amor das apparencias rutilantes, do arruido, frouxidão da vontade, dominio do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flôr.

CAPITULO XII

Um episodio de 1814

Mas eu não quero passar adeante, sem contar summariamente um galante episodio de 1814; tinha nove annos.

Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o explendor da gloria e do poder; era imperador e grangeára inteiramente a admiração dos homens. Meu pae, que á força de persuadir os outros da nossa nobreza, acabara persuadindo-se a si proprio, nutria contra elle um odio puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa, porque meu tio João, não sei se por espirito de classe e sympathia de officio, perdoava no despota o que admirava no general, meu tio padre era inflexivel contra o corso, os outros parentes dividiam-se; dahi as controversias e as rusgas.

Chegando ao Rio de Janeiro a noticia da primeira quéda de Napoleão, houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo publico, julgaram mais decoroso o silencio; alguns foram além e bateram palmas. A população, cordialmente alegre, não regateou demonstrações de affecto á real familia; houve illuminações, salvas, Te-Deum, cortejo e acclamações. Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no dia de Santo Antonio; e, francamente, interessava-me mais o espadim do que a quéda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse phenomeno. Nunca mais deixei de pensar commigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita pagina rumorosa de grandes idéas e maiores palavras, mas não sei porque, no fundo dos applausos que me arrancavam da boca, lá echoava alguma vez este conceito de experimentado:

–Vae-te embora, tu só cuidas do espadim.

Não se contentou a minha familia em ter um quinhão anonymo no regozijo publico; entendeu opportuno e indispensavel celebrar a destituição do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruido das acclamações chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou, quando menos, de seus ministros. Dito e feito. Veiu abaixo toda a velha prataria, herdada do meu avô Luiz Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da India; matou-se um capado; encommendaram-se ás madres da Ajuda as compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçaes, arandellas, as vastas mangas de vidro, todos os apparelhos do luxo classico.

Dada a hora, achou*-se reunida uma sociedade selecta, o juiz de fóra, tres ou quatro officiaes militares, alguns commerciantes e lettrados, varios funccionarios da administração, uns com suas mulheres e filhas, outros sem ellas, mas todos commungando no desejo de atolar a memoria de Bonaparte no papo de um perú. Não era um jantar, mas um Te-Deum; foi o que pouco mais ou menos disse um dos lettrados presentes, o Dr. Villaça, glosador insigne, que accrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse hontem, lembra-me de o ver erguer-se, com a sua longa cabelleira de rabicho, casaca de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote, e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo indice, que apontava para o tecto; e, assim posto e composto, devolver o mote glosado. Não fez uma glosa, mas tres; depois jurou aos seus deuses não acabar mais. Pedia um mote, davam-lh’o, elle glosava-o promptamente, e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras presentes não pôde calar a sua grande admiração.

–A senhora diz isso, retorquia modestamente o Villaça, porque nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do século, em Lisboa. Aquillo sim! que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Immenso talento o do Bocage! Era o que me dizia, ha dias, a Sra. duqueza de Cadaval…

E estas tres palavras ultimas, expressas com muita emphasis, produziram em toda a assembléa um fremito de admiração e pasmo. Pois esse homem tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava com duquezas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as damas sentiam-se superfinas; os varões olhavam-n’o com respeito, alguns com inveja, não raros com incredulidade. Elle, entretanto, ia caminho, a accummular adjectivo sobre adjectivo, adverbio sobre adverbio, a desfiar todas as rimas de tyranno e de usurpador. Era á sobremeza; ninguem já pensava em comer. No intervallo das glosas, corria um borborinho alegre, um palavrear de estomagos satisfeitos; os olhos, molles e humidos, ou vivos e calidos, espreguiçavam-se ou saltitavam de uma ponta a outra da meza, atulhada de doces e fructas, aqui o ananaz em fatias, alli o melão em talhadas, as compoteiras de crystal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarello como uma gemma,–ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado, um riso de familia, vinha quebrar a gravidade politica do banquete. No meio do interesse grande e commum, agitavam-se tambem os pequenos e particulares. As moças fallavam das modinhas que haviam de cantar ao cravo, e do minuete e do solo inglez; nem faltava matrona que promettesse bailar um oitavado de compasso, só para mostrar como folgára nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava a outro noticia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra-carta em que… Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquella occasião. O que afiançava é que podiamos contar, só nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos.

–Trás…trás…trás…fazia o Villaça batendo com as mãos uma na outra. O rumor cessava de subito, como um estacado de orchestra, e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe aconcheava a mão atraz da orelha para não perder palavra; a mór parte, antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de applauso, trivial e candido.

Quanto a mim, lá estava, solitario e deslembrado, a namorar uma certa compota da minha feição. No fim de cada glosa ficava muito contente, esperando que fosse a ultima; mas não era, e a sobremeza continuava intacta. Ninguem se lembrava de dar a primeira voz. Meu pae, á cabeceira, saboreava a goles extensos, a alegria dos convivas, mirava-se todo nos carões alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se com a familiaridade travada entre os mais distantes espiritos, influxo de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota para elle e delle para a compota, como a pedir-lhe que m’a servisse; mas fazia-o em vão. Elle não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas succediam-se, como bategas d’agua, obrigando-me a recolher o desejo e o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o doce; emfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pae, que seria capaz de me dar o sol, se eu lh*‘o exigisse, chamou um escravo para me servir o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancára-me da cadeira e entregára-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repellões.

Não foi outro o delicto do glosador: retardára a compota e dera causa á minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança, qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira o tornasse ridiculo. Que elle era um homem grave o Dr. Villaça, medido e lento, quarenta e sete annos, casado e pae. Não me contentava o rabo de papel nem o rabicho da cabelleira; havia de ser cousa peor. Entrei a espreital-o, durante o resto da tarde, a seguil-o, na chacara, aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusebia, irmã do sargento-mór Domingues, uma robusta donzellona, que se não era bonita, tambem não era feia.

–Estou muito zangada com o senhor, dizia ella.

–Porque?

–Porque … não sei porque … porque é a minha sina … creio ás vezes que é melhor morrer…

Tinham penetrado n’uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O Villaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia.

–Deixe-me, disse ella.

–Ninguem nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéas são essas! Você sabe que eu morrerei tambem … que digo?… morro todos os dias, de paixão, de saudades…

D. Eusebia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memoria algum pedaço litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de uma das operas do Judeu:

–Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.

Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais medroso dos beijos.

–O Dr. Villaça deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela chacara.

Foi um estouro esta minha palavra; a estupefacção immobilisou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, segredos, á socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno. Meu pae puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado devéras com a indiscrição; mas no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz, a rir:–Ah! brejeiro! ah! brejeiro!

CAPITULO XIII

Um salto

Unamos agora os pés e demos um salto por cima da eschola, a enfadonha eschola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhal-as, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propicio a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições arduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatoria, e ainda assim… Ó palmatoria, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cerebro o alphabeto, a prosodia, a syntaxe, e o mais que elle sabia, benta palmatoria, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorancias, e o meu espadim, aquelle espadim de 1814, tão superior á espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras lettras? Lição de cór e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é a mestra das ultimas lettras; com a differenca que tu, se me mettias medo, nunca me metteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinellas de couro branco, capote, lenço na mão, calva á mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois á lição. E fizeste isto durante vinte e tres annos, calado, obscuro, pontual, mettido n’uma casinha da rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia déste o grande mergulho nas trevas, e ninguem te chorou, salvo um preto velho,–ninguem, nem eu, que te devo os rudimentos da escripta.

Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta pagina: Ludgero Barata,–um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem. Duas, tres vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calças,–umas largas calças de enfiar–, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se elle a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chammejantes, dizia-nos os ultimos nomes; eramos sevandijas, capadocios, mal criados, moleques.–Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.

Uma flôr, o Quincas Borba. Nunca em minha infancia, nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flôr, e não já da eschola, senão de toda a cidade. A mãe, viuva, com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, aceiado, enfeitado, com um vistoso pagem atraz, um pagem que nos deixava gazear a eschola, ir caçar ninhos de passaros, ou perseguir lagartixas no morro do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, á toa, como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espirito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, elle escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificencia nas attitudes, nos meneios. Quem diria que… Suspendamos a penna; não adeantemos os successos. Fujamos sobretudo desse passado tão remoto, tão coberto, ai de mim! de cruzes funebres. Vamos do um salto a 1822, data da nossa independencia politica, e do meu primeiro captiveiro pessoal.

CAPITULO XIV

O primeiro beijo

Tinha dezesete annos; pungia-me um buçosinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição verdadeiramente mascula. Como ostentasse certa arrogancia, não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corsel nervoso, rijo, veloz, como o corsel das antigas balladas, que o romantismo foi buscar ao castello medieval, para dar com elle nas ruas do nosso seculo. O peor é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deital-o á margem, onde o realismo o veiu achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros.

Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou deante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me captivou logo foi um … uma … não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castissimo. Mas vá lá; ou se ha de dizer tudo ou nada. A que me captivou foi uma dama hespanhola, Marcella, a «linda Marcella», como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Asturias; disse-m’o ella mesma, n’um dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um lettrado de Madrid, victima da invasão franceza, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ella tinha apenas doze annos. Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pae, lettrado ou hortelão, a verdade é que Marcella não possuia a innocencia rustica, e mal chegava a entender a moral do codigo. Era boa moça, lepida, sem escrupulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permittia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquelle anno, morria ella de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tisico,–uma perola.

Vi-a, pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminarias, logo que constou a declaração da independencia, uma festa de primavera, um amanhecer da alma publica. Eramos dous rapazes, o povo e eu; vinhamos da infancia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sahir de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras. –Segue-me, disse ella ao pagem. E eu segui-a, tão pagem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe «linda Marcella», lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.

Tres dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcella. O Xavier, com todos os seus tuberculos, presidia ao banquete nocturno, em que eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa. Que gentil que ella estava a hespanhola! Havia mais uma meia duzia de mulheres,–todas de partido–, e bonitas, cheias de graça, mas a hespanhola… O enthusiasmo, alguns goles de vinho, o genio imperioso, estouvado, tudo isso me levou a fazer uma cousa unica; á sahida, á porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a subir as escadas.

–Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcella de pé, no patamar.

–O lenço.

Ella ia abrir-me caminho para tornar á sala; eu segurei-lhe nas mãos, puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ella disse alguma cousa, se gritou, se chamou alguem; não sei nada; sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ebrio.

CAPITULO XV

Marcella

Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcella, não já cavalgando o corsel do cégo desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso. Que, na verdade, ha dous meios de grangear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, e o insinuativo, como o cysne de Leda e a chuva de ouro de Danae, tres inventos do padre Zeus, que, por estarem fóra da moda, ahi ficam trocados no cavallo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem as pitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Affirmo-lhes que o asno foi digno do corsel,–um asno de Sancho, deveras philosopho, que me levou á casa della, no fim do citado periodo; apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o pastar.

Primeira commoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia ser, na creação biblica, o effeito do primeiro sol. Imagina tu esse effeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor. Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito annos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.

Teve duas phases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, que eu de nomes não curo; teve a phase consular e a phase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que elle jamais acreditasse dividir commigo o governo de Roma; mas, quando a credulidade não pôde resistir á evidencia, o Xavier depoz as insignias, e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a phase cesariana. Era meu o universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso colligir dinheiro, multiplical-o, invental-o. Primeiro explorei as larguezas de meu pae; elle dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem reprehensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz e que elle o fora tambem. Mas a tal extremo chegou o abuso, que elle restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava ás escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso ultimo: entrei a saccar sobre a herança de meu pae, a assignar obrigações, que devia resgatar um dia com usura.

–Na verdade, dizia-me Marcella, quando eu lhe levava alguma seda, alguma joia; na verdade, você quer brigar commigo… Pois isto é cousa que se faça… um presente tão caro…

E, se era joia, dizia isto a contemplal-a entre os dedos, a procurar melhor luz, a ensaial-a em si, e a rir, e a beijar-me com uma reincidencia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vêl-a assim. Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter; Marcella juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, cuja chave ninguem nunca jámais soube onde ficava; escondia-a por medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era propria. Eram solidos e bons os moveis, de jacarandá lavrado, e todas as demais alfaias, espelhos, jarras, baixella,–uma linda baixella da India, que lhe doára um desembargador. Baixella do diabo, deste-me grandes repellões aos nervos. Disse-o muita vez á própria dona; não lhe dissimulava o tedio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho. Ella ouvia-me e ria, com uma expressão candida,–candida e outra cousa, que eu nesse tempo não entendia bem; mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso mixto, como devia ter a creatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare com um seraphim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha noticia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais. Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo collar, que ella vira n’um joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que o nosso amor não precisava de tão vulgar estimulo.

–Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéa, concluiu ameaçando-me com o dedo.

E logo, subita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com ellas o rosto, puxou-me a si e fez um tregeito gracioso, um momo de criança. Depois, reclinada na marqueza, continuou a fallar daquillo, com simplicidade e franqueza. Jámais consentiria que lhe comprassem os affectos. Vendera muita vez as apparencias, mas a realidade, guardava-a para poucos. O Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ella amára devéras, dous annos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de valor, como me acontecia a mim; ella só lhe aceitava sem reluctancia os mimos de escasso preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de festas.

–Esta cruz…

Dizia isto, mettendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita azul e pendurada ao collo.

–Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pae que…

Marcella abanou a cabeça com um ar de lastima:

–Não percebeste* que era mentira, que eu dizia isso para te não molestar? Vem cá, chiquito, não sejas assim desconfiado commigo… Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos…

–Não digas isso! bradei eu.

–Tudo cessa! Um dia…

Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos, tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao ouvido:–Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh’o com os olhos humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado.

–Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.

Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto magnifico: tentou atirar o collar á rua. Eu retive-lhe o braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia. Sorriu e ficou.

Entretanto, pagava-me á farta os sacrifícios; espreitava os meus mais reconditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com alma, sem esforço, por uma especie de lei da consciencia e necessidade do coração. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este vestido e não aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia a tudo, risonha e palreira.

–Você é das Arabias, dizia-me.

E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de encantar.

CAPITULO XVI

Uma reflexão immoral

Occorre-me uma reflexão immoral, que é ao mesmo tempo uma correcção de estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal commercio dos corações. Esta é a reflexão immoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que immoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bella testa do mundo não fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita, Marcella amou-me…

CAPITULO XVII

Do trapezio e outras cousas

… Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de réis; nada menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se devéras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.

–Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:–Gatuno, sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto…

Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle, e sacudiu-m’os na cara;–Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em* casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou ficas sem cousa nenhuma.

Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a Europa.

–Porque não?

–Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão…

–Qual delles: o hortelão ou o advogado?

Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh’o a mucama, n’uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n’outra; fui eu que me atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh’os, recordei aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com lagrymas que me não desamparasse… Marcella esteve alguns instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:

–Não me aborreça, disse.

Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova.–Não! bradei eu; não has de entrar… não quero… Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se.

Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte… Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza me bradava que era preciso levar Marcella commigo.

–Por força… por força… dizia eu ferindo o ar com uma punhada.

Emfim, tive uma idéa salvadora… Ah! trapezio dos meus peccados, trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle, como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a, fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias; recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n’um pente de marfim; corri á casa de Marcella.

Marcella estava reclinada n’uma rede, o gesto molle e cançado, uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.

–Vem commigo, disse eu, arranjei recursos…temos muito dinheiro, terás tudo o que quizeres…Olha, toma.

E mostrei-lhe o ponte com os diamantes, Marcella teve um leve sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu metade do corpo, e, apoiada n’um cotovello, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe.

–Prompto, disse eu.

–Doudo! foi a sua primeira resposta.

A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de reprehensão:

–Ora você! dizia.

–Vens commigo?

Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia; mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu resolutamente:

–Vou. Quando embarcas?

–Daqui a dous ou tres dias.

–Vou.

Agradeci-lh’o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros dias, e disse-lh’o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu descia a escada.

CAPITULO XVIII

Visão do corredor

No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéas dispersas, rehaver-me emfim no meio de tantas sensações profundas e contrarias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia ter defeitos, mas amava-me…

–Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor.

E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. Pobre namorado das Mil e uma noites! Vi-te alli mesmo correr atraz da mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde sahiste á rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calçada, tres dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro á paisana, os quaes todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, metteram-me n’uma sege, meu pae á direita, meu tio conego á esquerda, o da libré na boléa, e lá me levaram á casa do intendente de policia, donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resistencia era inutil.

Tres dias depois segui barra fóra, abatido e mudo. Não chorava sequer; tinha uma idéa fixa… Malditas idéas fixas! A dessa occasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella.

CAPITULO XIX

A bordo

Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu pae recommendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher tisica em ultimo gráu.

Não sei se o capitão suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou se meu pae o poz de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar commigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quasi sempre n’uma camilha raza, a tossir muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente; era impossivel que não morresse de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte proxima, talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O mundo para mim era Marcella.

Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto á amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.

–Algum temporal? disse eu.

–Não, respondeu elle estremecendo; não; admiro o explendor da noite. Veja; está celestial!

O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a locuções rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto. No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua, perguntando-me porque não fazia uma ode á noite; respondi-lhe que não era poeta. O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a mão no bolso, saccou um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, á luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da* vida maritima. Eram versos delle.

–Que tal?

Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mão com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da mulher.–Lá vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa, com amor.

Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espirito os pensamentos máus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente, menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, n’uma berlinda; a morte de uma filha fôra a causa da loucura. Não, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta, descomposta. Ás* vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar delle; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu.* Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi uma diversão excellente á tempestade do meu coração. Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fital-a quando ella veiu ter commigo.

Amainou o temporal, o capitão veiu perguntar-me se tivera medo, se estivera em risco, se não achára sublime o expectaculo; tudo isso com um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idyllios piscatorios; eu respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.

–Vae ver, respondeu elle.

E recitou-me um poemasinho, depois outro,–uma egloga,–e emfim cinco sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só por motivos graves abraçara a profissão maritima, porque a avó queria que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas; não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua vocação natural; e em prova de que tal era a sua vocação, recitou-me logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, que não viu nem ouviu nada.

Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da semana.

–Já! exclamei.

–Passou muito mal a noite.

Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de descançar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque era seu proposito levar-me á Universidade. Deixei-a consternado; fui achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m’os. Neste ponto vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o capitão, sentado n’um mólho de cabos, com a cabeça nas mãos; disse-lhe alguma cousa de conforto.

–Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras não pudessem ser levadas á conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.–Vamos, continuou, entreguemol-a á cova que nunca mais se abre.

Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar, com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos; o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se,–uma leve ruga,–e a galera foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em que ficava um de nós… Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o.

–Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh’os ha de pagar. Pobre Leocadia! tu te lembrarás de nós no ceu.

Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera, e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um pouco.–Talvez aceite, disse elle; mas não sei… são bem frouxos versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do desembarque.

–Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver… o mar… o ceu… o navio…

No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da mulher; leu-m’o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.

–São, disse eu.

–Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a perfeição….

–Não me parece; acho os versos perfeitos.

–Sim, eu creio que… Versos de marujo.

–De marujo poeta.

Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a composição, mas já então sem tremuras, accentuando as intenções litterarias, dando relevo ás imagens e melodia aos versos. No fim, confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim; elle apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro.

CAPITULO XX

Bacharelo-me

Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma idéa expellia outra, a ambição desmontava Marcella. Um grande futuro? Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou até bispo,–bispo que fosse,–uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia, uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse aguia, quebrou nessa occasião o ovo, e desvendou a pupilla fulva e penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias sem preço, vida sem regimen, adeus. Cá me vou ás fadigas e á gloria; deixo-vos com as calcinhas da primeira edade.

E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e não sei se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o gráu de bacharel; deram-m’o com a solemnidade do estylo, após os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de saudades,–principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um academico estroina, superficial, tumultuario e petulante, dado ás aventuras, fazendo romantismo pratico e liberalismo theorico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por alli fóra assaz desconsolado, mas sentindo já uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de influir, de gozar, de viver,–de prolongar a Universidade pela vida adeante…

CAPITULO XXI

O almocreve

Vae então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu fóra da sella, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado, disparou pela estrada fóra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de lhe pegar na redea e detel-o, não sem esforço nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de pé.

–Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.

E era verdade; se o jumento corre por alli fóra, contundia-me devéras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro; e lá se me ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom almocreve! emquanto eu tornava á consciencia de mim mesmo, elle cuidava de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; não porque tal fosse o preço da minha vida,–essa era inestimavel; mas por que era uma recompensa digna da dedicação com que elle me salvou. Está dito, dou-lhe as tres moedas.

–Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura.

–Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim…

–Ora qual!

–Pois não é certo que ia morrendo?

–Se o jumento corre por ahi fóra, é possivel; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.

Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir á luz do sol; não a viu o almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o «senhor doutor» podia castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.

–Olé! exclamei.

–Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça…

Ri-me, hesitei, metti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco incerto do effeito da pratinha. Mas a algumas braças de distancia, olhei para traz, o almocreve fazia-me grandes cortezias, com evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez de mais. Metti os dedos no bolso do collete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os vintens que eu devera ter dado ao almocreve, em logar do cruzado em prata. Porque, emfim, elle não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos habitos do officio; accresce que a circumstancia de estar, não mais adeante nem mais atraz, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituil-o simples instrumento de Providencia; e de um ou de outro modo, o merito do acto era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflexão, chamei-me prodigo, lancei o cruzado á conta das minhas dissipações antigas; tive (porque não direi tudo?) tive remorsos.

CAPITULO XXII

Volta ao Rio

Jumento de uma figa, cortaste-me o fio ás reflexões. Já agora não digo o que pensei dalli até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na peninsula e em outros logares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia remoçar. Não, não direi que assisti ás alvoradas do romantismo, que tambem eu fui fazer poesia effectiva no regaço da Italia; não direi cousa nenhuma. Teria de escrever um diario de viagem e não umas memorias, como estas são, nas quaes só entra a substancia da vida.

Ao cabo de alguns annos de peregrinação attendi ás supplicas de meu pae:–«Vem, dizia elle na ultima carta; se não vieres depressa, acharás tua mãe morta!» Esta ultima palavra foi para mim um golpe. Eu amava minha mãe; tinha ainda deante dos olhos as circumstancias da ultima benção que ella me dera, a bordo do navio. «Meu triste filho, nunca mais te verei», soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. E essas palavras resoavam-me agora, como uma prophecia realizada.

Note-se que eu estava em Veneza, ainda rescendente aos versos de lord Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o preterito, crendo-me na Serenissima Republica. É verdade; uma vez aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.–Que doge, signor mio? Cahi em mim, mas não confessei a illusão; disse-lhe que a minha pergunta era um genero de charada americana; elle mostrou comprehender, e accrescentou que gostava muito das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte dos Suspiros, a gondola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei tudo, e disparei como uma bala na direcção do Rio de Janeiro.

Vim… Mas não; não alonguemos este capitulo. Ás vezes, esqueço-me a escrever, e a penna vae comendo papel, com grave prejuizo meu, que sou autor. Capitulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um publico in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, typo elegante, corte dourado e vinhetas… principalmente vinhetas… Não, não alonguemos o capitulo.

CAPITULO XXIII

Triste, mas curto

Vim; e não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova. Não era effeito da minha patria politica; era-o do logar da infancia, a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto do ganho, as cousas e scenas da meninice, buriladas na memoria. Nada menos que uma renascença. O espirito, como um passaro, não se lhe deu da corrente dos annos, arrepiou o vôo na direcção da fonte original, e foi beber da agua fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida.

Reparando bem, ha ahi um logar-commum. Outro logar-commum, tristemente commum, foi a consternação da familia. Meu pae abraçou-me com lagrimas.–Tua mãe não póde viver, disse-me elle. Com effeito, não era já o rheumatismo que a matava, era um cancro no estomago. A infeliz padecia de um modo crú, porque o cancro é indifferente ás virtudes do sujeito; quando róe, róe; roer é o seu officio. Minha irmã Sabina, já então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia tres horas por noite, nada mais. O proprio tio João estava abatido e triste. D. Eusebia e algumas outras senhoras lá estavam tambem, não menos tristes e não menos dedicadas.

–Meu filho!

A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso allumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a aza eterna. Era menos um rosto do que uma caveira; a belleza passára, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emmagrecem nunca. Mal poderia conhecel-a; havia oito ou nove annos que nos não viamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos della entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar fallar, porque cada palavra seria um soluço, e nós temiamos avisal-a do fim. Vão temor! Ella sabia que estava prestes a acabar; disse-m’o; verificamol-o na seguinte manhã.

Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, repisada, que me encheu de dor e estupefacção. Era a primeira vez que eu via morrer alguem. Conhecia a morte de outiva; quando muito, tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadaver, que acompanhei ao cemiterio, ou trazia-lhe a idéa embrulhada nas amplificações de rhetorica dos professores de cousas antigas,–a morte aleivosa de Cesar, a austera de Socrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duello do ser e do não ser, a morte em acção, dolorida, contrahida, convulsa, sem apparelho politico ou philosophico, a morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me que não chorei durante o expectaculo; tinha os olhos estupidos, a garganta presa, a consciência boquiaberta. Que? uma creatura tão docil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lagrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa immaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericordia? Confesso que tudo aquillo me pareceu obscuro, incongruente, insano…

Triste capitulo; passemos a outro mais alegre.

CAPITULO XXIV

Curto, mas alegro

Fiquei prostrado. E comtudo era eu, nesse tempo, um fiel compendio de trivialidade e presumpção. Jamais o problema da vida e da morte me opprimira o cerebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abysmo do Inexplicavel; faltava-me o essencial, que é o estimulo, a vertigem…

Para lhes dizer a verdade toda, eu reflectia as opiniões de um cabelleireiro, que achei em Modena, o qual se distinguia por não as ter absolutamente. Era a flor dois cabelleireiros; por mais demorada que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; elle intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um sabor… E não tinha outra philosophia. Nem eu. Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as formulas, o vocabulario, o esqueleto. Tratei-a, como tratei o latim: embolsei tres versos de Virgilio, dous de Horacio, uma duzia de locuções moraes e politicas, para as despezas da conversação. Tratei-os como tratei a historia e a jurisprudencia. Colhi de todas as cousas a phraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu espirito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as conchas do mar e os dentes de pessoa morta.

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz á consciência; e o melhor da obrigação é quando, á força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hypocrisia, que é um vicio hediondo. Mas, na morte, que differença! que desabafo! que liberdade! Como a gente póde sacudir fóra a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, já não ha visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; não ha platéa. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o territorio da morte; não digo que elle se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não ha nada tão incommensuravel como o desdem dos finados.

CAPITULO XXV

Na Tijuca

Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe.

No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque,–o Prudencio da capitulo XI,–e fui metter-me n’uma velha, casa de nossa propriedade. Meu pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum tempo,–duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella, a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam que era avaro.

Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella, solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.–«Que bom que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»–Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda mais cabisbaixo do que a figura,–ou jururú, como dizemos das gallinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo.

Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,–lia muito,–outras emfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do ceu. Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa, situada a duzentos passos da nossa.

–Quem?

–Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia…

–Lembra-me… É ella?

–Ella e a filha. Vieram hontem de manhã.

Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m’a não dessem, 1814 lá ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú.

–Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio. Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.

Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.

CAPITULO XXVI

O autor hesita

Súbito ouço uma voz:–Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:

–Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.

–Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.

Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem, quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m’a duas vezes.

–Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e acho que deves ir tambem…

–Eu?

–Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago commigo uma idéa, um projecto, ou… sim, digo-te tudo; trago dous projectos, um logar de deputado e um casamento.

Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.

–Aceitas?

–Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á noiva… deixe-me viver como um urso, que sou.

–Mas os ursos casam-se, replicou elle.

–Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.

Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões, que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da familia…

–Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.

Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo, do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos… Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n’um pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:

                     arma virumque cano
 A
 Arma virumque cano
           arma virumque cano
      arma virumque
                     arma virumque cano
           virumque

Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa deducção; por exemplo, foi o virumque que me fez chegar ao nome do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever virumque–e sae-me Virgilio, então continuei:

 Vir                         Virgilio
      Virgilio       Virgilio
             Virgilio
                             Virgilio

Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu a mim, lançou os olhos ao papel…

–Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgilia.

CAPITULO XXVII

Virgilia?

Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois…? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,–devoção, ou talvez medo; creio que medo.

Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem á luz,–tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem injusto.

–Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e exprimil-a depois de tantos annos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos. Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

CAPITULO XXVIII

Contanto que…

–Virgilia? interrompi eu.

–Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos… filha do Dutra…

–Que Dutra?

–O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá; aceitas?

Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o casamento, comtanto que…

–Comtanto que?

–Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso ser separadamente homem casado ou homem publico…

–Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa… isto é, não… saberás depois… Vá; aceito a dilação, comtanto que…

–Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.

–Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com sessenta annos, mas se fosse necessário começar vida nova, começava-a sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios…

E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada morbida,–o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.

CAPITULO XXIX

A visita

Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia e a camara dos deputados.–As duas Virgilias, disse elle n’um assomo de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços. Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente, o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa do velho Cid; era a alma que colligira n’uma só flamma todas as ultimas scentelhas.

–Desces commigo?

–Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia…

Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento.

–Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos… Um homemzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim…

Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os namoros… Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:

–Mamãe… mamãe…

CAPITULO XXX

A flor da moita

A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:

–Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do Sr. Cubas; veiu da Europa.

E voltando-se para mim:

–Minha filha Eugenia.

Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se desmanchara.–Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto é… E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e,–direi tudo,–tive umas cocegas de ser pae.

–Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece.

–Quantos lhe dá?

–Dezesete.

–Menos um.

–Dezeseis. Pois então! é uma moça.

Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d’antes, erecta, fria e muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel, tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria, com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante…

Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas:–T’esconjuro!… sáe, diabo!… Virgem Nossa Senhora!…

–Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D. Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavallo afilha de D. Eusebia, seguida de um pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a cabeça para traz; mas não voltou.

CAPITULO XXXI

A borboleta preta

No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saíu* dalli e veiu parar em cima de um velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu.

Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incommodado.

–Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo.

E esta reflexão,–uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas,–me consolou do maleficio, e me reconciliou commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo. Supponho que nunca teria visto um homem; não-sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser superior ás borboletas! Porque, é* justo dizel-o, se ella fosse azul, ou côr de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi vinham já as providas formigas… Não, volto á primeira idéa; creio que para ella era melhor ter nascido azul.

CAPITULO XXXII

Coxa de nascença

Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação… Ai de mim! Não contava com D. Eusebia. Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, era-lhe devida aquella compensação; fui.

Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa,–se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas orelhas finamente recortadas n’uma cabeça de nympha. Um simples vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra de pulseira.

Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras, maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo mote á filha…

–Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o ultimo gole de café.

Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:

–Não, senhor, sou coxa de nascença.

Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na vespera–a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia triste.

Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;–não me foi difficil, por que a mãe era, segundo confessara, uma velha patusca, e promptamente travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugenia…

Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem biocos.

CAPITULO XXXIII

Bemaventurados os que não descem

O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma. O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem explical-o.

Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza, entregava-me a alma em flôr.

–O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado.

–Pretendo.

–Não desça.

Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:–Bemaventurados os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,–o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n’aquella occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á tua origem…

D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor! D. Eusebia não suspeitou nada.

CAPITULO XXXIV

A uma alma sensivel

Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez… sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma sensível, uma barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,–que isso ás vezes é dos oculos,–e acabemos de uma vez com esta flor da moita.

CAPITULO XXXV

O caminho de damasco

Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escriptura (Act., IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não ha duvidar que ella o achou e m’o disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo.–Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem.–E como eu nada dissesse, continuou:–Faz bem em fugir ao ridículo de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente, engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou sem dizer nada.

–Acredita-me? perguntei eu no fim.

–Não; e digo-lhe que faz bem.

Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica… que a constituição… que a minha noiva… que o meu cavallo…

CAPITULO XXXVI

A proposito de botas

Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento.–Agora é devéras? disse elle. Posso emfim….?

Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n’uma relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma preoccupação, a um incommodo… Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.

Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem para esta outra margem… O que eu não sei é se a tua existência era muito necessaria ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragedia humana.

CAPITULO XXXVII

Emfim

Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento.

–Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará. Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma flôr, uma estrella, uma cousa rara… é a filha delle; imaginei que, se casasses com ella, mais depressa serias deputado.

–Só isto?

–Só isto.

Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á mulher,–uma estimavel senhora,–e á filha, que não desmentiu em nada o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII. Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez estavamos intimos.

CAPITULO XXXVIII

A quarta edição

–Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.

Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á mão; era um cubiculo,–pouco mais,–empoeirado e escuro.

Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N’um dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era Marcella.

Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.

–Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.

Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a amára outr’ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja–talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em dizer-ll’a; não era longa, nem interessante.

–Casou? disse Marcella no fim de minha narração.

–Ainda não, respondi seccamente.

Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr’ora, como hoje, ardia nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh’a; eram olhos da primeira edição.

–Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo daquella especie de torpor.

–Não, suppunha entrar n’uma casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.

Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa. Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me daria finas joias por preços baratos. Não disse preços baratos, mas usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que me disseram depois.

CAPITULO XXXIX

O visinho

Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos.

–Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella.

–Assim, assim. Vem cá, Maricota.

O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão.

–Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a… Então, Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim… Não imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes, e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem… Digo, Maricota?

–Não, diga, não, papae.

–Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da menina.

–Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem veiu pedir-me com voz muito humilde… imagine o que?… que queria offerecel-os a Santa Marcella.

–Coitadinha! disse Marcella beijando-a.

–É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina … A mãe diz que é feitiço…

Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que saiu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.

–É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim… é boa gente.

Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura…

CAPITULO XL

Na sege

Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo; já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse a Marcella que voltaria n’outra occasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem, que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas…

Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes, um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o presente, almejava por sair á planicie do futuro. O peior é que a sege não andava.

–João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?

–Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.

CAPITULO XLI

A allucinação

E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:

–Esperavamos que viesse mais cedo.

Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico tolhido de assombro. Virgilia… seria Virgilia aquella moça? Fitei-a muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle, ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella, stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.

Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus proprios pés. Devia, sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto delia algum vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.

–Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistência.

–Tão bonita, nunca.

Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.

Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ella padecia, e não pouco,–ou fosse magua pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provável que Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metaphysica.

CAPITULO XLII

Que escapou a Aristoteles

Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:–Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Supponhamos que a primeira bola se chama… Marcella,–é uma simples supposição; a segunda, Braz Cubas;–a terceira, Virgilia. Temos que Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz Cubas,–o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar–solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a Aristoteles?

CAPITULO XLIII

Marqueza, porque eu serei marquez

Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se querem, mas era-o, e então…

E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.

–Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um anno.

Virgilia replicou:

–Promette que algum dia me fará baroneza?

–Marqueza, porque eu serei marquez.

Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é justamente o contrario.

CAPITULO XLIV

Um Cubas!

Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência.

–Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço.

Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.

Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,–acabrunhado, triste, com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe,–lembra-me bem,–vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.

–Um Cubas!

Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de morrer, morreu.

–Um Cubas!

CAPITULO XLV

Notas

Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’agua benta, o fechar do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventario, eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta do sol; porquanto:–_a_) a natureza não inventou a morte, senão com o fim de dar vida a algumas industrias,–armadores, segeiros, emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente previu;–_b_) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana, não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não escrevo.

CAPITULO XLVI

A herança

Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,–minha irmã sentada n’um sophá,–pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,–eu a passeiar de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo silencio.

–Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco…

–Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito…

–Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?

–Não fale nisso! Uma casa velha.

–Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.

–Parece-lhe nova, aposto?

–Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo…

–O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.

–Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.

–O Prudencio está livre.

–Livre?

–Ha dois annos.

–Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte a ninguem! Está direito. Quanto á prata… creio que não libertou a prata?

Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas.

–Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você é solteiro, não recebe, não…

–Mas posso casar.

–Para que? interrompeu Sabina.

Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de acquiescencia, e agradeceu-m’o.

–Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.

–Nem cede?

Abanei a cabeça.

–Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.

–Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro officio!

Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo. Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,–e depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.

–Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.

Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda presenciou uma pequena altercação.

–Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.

Mas o Cotrim:

–Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão secco é que eu não engulo.

Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria, irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.

CAPITULO XLVII

O recluso

Marcella, Sabina, Virgilia… ahi estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou da Z. ou da U.–que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias; a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes.

Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro, ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas, e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e melhor marquez do que o Lobo Neves,–eu, que valia mais, muito mais do que elle,–e dizia isto a olhar para a ponta do nariz…

CAPITULO XLVIII

Um primo de Virgilia

–Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz Dutra.

O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.

Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa, e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu falava-lhe de mil cousas differentes,–do ultimo baile do Cattete, da discussão das camaras, de berlindas e cavallos,–de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação, depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz…

CAPITULO XLIX

A ponta do nariz

Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida… Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,–e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.

Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra, dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.

Ouço daqui uma objecção do leitor:–Como pode ser assim, diz elle, se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu proprio nariz?

Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas, e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro… Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz.

A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo. Procreação, equilibrio.

CAPITULO L

Virgilia casada

–Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo Neves, continuou o Luiz Dutra.

–Ah!

–E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão…

–Que foi?

–Que você quiz casar com ella.

–Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso?

–Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo.

No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu fiquei attonito.

Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar duas ou tres palavras. Mas n’outro baile, dado dahi a um mez, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.

–Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço?

–Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.

Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos, ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro.

Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:–O senhor hoje ha de valsar commigo.–Na verdade, eu tinha fama e era valsista emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam…Um delirio.

CAPITULO LI

É minha!

–É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais insinuativa.

–É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa.

Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia-dobra.

–É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.

Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.

–Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?

E a boa dama sacou um espelho e abriu-m’o deante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida, multiplicando-se por si mesma,–ser dez–depois trinta–depois quinhentas,–exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um poucochinho mais.

Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso. Pois toma lá o embrulho mysterioso.

CAPITULO LII

O embrulho mysterioso

Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n’um embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam,–um pescador curava as redes ainda mais longe,–ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.

Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco adeante, desandei o caminho e guiei para casa.

–Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.

E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi… achei… contei… recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco contos,–eu, que era abastado.

Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves, que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado; elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.

De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n’uma praia, é necessário que… Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos beneficios da Providencia.

–Estes cinco contos, dizia eu com migo, tres semanas depois, hei de empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra cousa assim… hei de ver…

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modestia,–e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era simplesmente grande.

CAPITULO LIII

……….

Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento;–era o que dizia, e era verdade.

Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo que ella me deu, tremula,–coitadinha,–tremula de medo, porque era ao portão da chacara, á vista das estrellas,–das castas estrellas de Othello,–_you chaste stars!_ Uniu-nos esse beijo unico,–breve como a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções que desabrochavam em alegria,–uma hypocrisia paciente e systematica, unico freio de uma paixão sem freio,–vida de agitações, de coleras, de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.

CAPITULO LIV

A pendula

Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito mal; esse tic-tac soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim:

–Outra de menos…

–Outra de menos…

–Outra de menos…

–Outra de menos…

O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.

Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva.

CAPITULO LV

O velho dialogo de Adão e Eva

BRAZ CUBAS

. . . . ?

VIRGILIA

. .

BRAZ CUBAS

       .      .      .   .   .   .      .      .   .

.         .       .

VIRGILIA

.       .  . !

BRAZ CUBAS

.         .

VIRGILIA

. . . . . . . . . . . . . . ? . . . . . . . . . . . . . . . . .

BRAZ CUBAS

. . . . . .

VIRGILIA

. . . .

BRAZ CUBAS

. . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . ! . .

. . ! . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . !

VIRGILIA

. . . . . . . . . . . . .?

BRAZ CUBAS

. . . . .!

VIRGILIA

. . . . .!

CAPITULO LVI

O momento opportuno

Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença?

A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estavamos para o nosso amor: distincção fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.

–Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.

Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de importuno a opportuno.

CAPITULO LVII

Destino

Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam, agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungi-los um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:

Di pari, come buoi, che vanno a giogo;

e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos? Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossivel que… Já me não lembra onde estava… Ah! nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando:

–Amo-te, é a vontade do ceu.

E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.

CAPITULO LVIII

Confidencia

O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão! Como adorasse a mulher, não se vexava de m’o dizer muitas vezes; achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma crise de melancolia; tratei de combatel-a.

–Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação. Escripturei-me; deram-me um papel que… Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho passado horas e dias… Não ha constância de sentimentos, não ha gratidão, não ha nada… nada… nada…

Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:–O senhor ha de rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste; depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria, a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.

CAPITULO LIX

Um encontro

Deve ser um vinho hem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando… andando… andando….

–Porque não serei eu ministro?

Esta idéa, rútila e grande,–trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes,–esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico; e tudo me parecia dizer a mesma cousa.–Porque não serás ministro, Cubas?–Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me n’um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d’onde fosse.

Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,–ou, litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.

–Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.

–Não me lembra…

–Sou o Borba, o Quincas Borba.

Recuei espantado… Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação acabrunhava.

–Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo…

E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe callejára a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os andrajos, como outr’ora a purpura: com certa graça indolente.

–Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.

Um sorriso magnifico lhe abriu os lábios.–Não é o primeiro que me promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vinténs de angú, nem isso fiam as malditas quitandeiras…. Um inferno, meu… ia dizer meu amigo…. Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.

–Não?

–Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi…

Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,–a menos limpa,–e dei-lh’a. Elle recebeu-m’a com os olhos scintillantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.

–_In hoc signo vinces!_ bradou.

E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle, que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis.

–Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.

–Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.

–Trabalhando, conclui eu.

Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair.

–Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle, escarranchando-se diante de mim.

CAPITULO LX

O abraço

Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns pruridos de posse.

–Magnifico! disse elle.

Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito.

–O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e… Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado?

–Não…

–Nem eu.

–Móro na rua…

–Não quero saber onde mora, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho…. Agora, adeus; vejo que está impaciente.

–Adeus!

–E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?

E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr’ora, entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo…

–Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.

Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba furtára-m’o no abraço.

CAPITULO LXI

Um projecto

Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão… Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa, para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.

Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico, a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes.

–A que horas?

–Não tem hora certa.

Não era impossivel encontral-o n’outra occasião; prometti a mim mesmo lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio… Nisto caía a noite; fui ter com Virgilia.

CAPITULO LXII

O travesseiro

Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido, aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba… Escrofula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?

CAPITULO LXIII

Fujamos!

Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de Virgilia,–eram quatro horas da tarde,–achei-a triste e abatida. Não me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:

–Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas exquisitices nelle… Não sei… Trata-me bem, não ha duvida; mas o olhar parece que não é o mesmo. Durmo, mal; ainda esta noite acordei, aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão, mas eu penso que elle desconfia…

Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos. Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria mais do que penetrar naquella habitação dos anjos.

–Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.

–Que é?

–Amas-me?

–Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço.

Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente. Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte. A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas, e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.

–De que?

–De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos pára ti, onde vivamos um para o outro… Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde descobrir alguma cousa, e estarás perdida… ouves? perdida… morta… e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.

Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:

–Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo modo.

Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido gostava muito della.

–Póde ser, respondi eu; póde ser que sim…

E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão… Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.

–Está cá ha muito tempo? disse-me elle.

–Não.

Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido, costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes. Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á sala.

–Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá.

–Cançado? perguntei eu.

–Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..

–Que é? perguntou Virgilia.

–Um… Adivinha!

Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n’uma das mãos, compoz-lhe a gravata, e tornou a perguntar o que era.

–Nada menos que um camarote.

–Para a Candiani?

–Para a Candiani.

Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa, acerca da toilette que faria, da opera que se cantava, e de não sei que outras cousas.

–Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.

–Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o melhor vinho do Rio de Janeiro.

–Nem por isso bebe muito.

Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia. Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse, ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me apenas nos levantámos da mesa.

–Até logo, não? perguntou o Lobo Neves.

–Póde ser.

E sai.

CAPITULO LXIV

A transacção

Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir, atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír. Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza. Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a esquecel-a e a matal-a. Via-a d’alli mesmo, reclinada no camarote, com os seus magnificos braços nús,–os braços que eram meus, só meus,–fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della… Via-a assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a, a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos sofregas e lascivas, a tornal-a,–não sei se mais bella, se mais natural,–a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha.

No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a com os olhos vermelhos de chorar.

–Que houve? perguntei.

–Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?

–Que foi o que? Creio que não houve nada.

–Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro…

A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas rebentaram-lhe dos olhos.

–Acabou, acabou, disse eu.

Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma, que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás dissensões era aceitar a minha idéa da vespera.

–Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria, mettida n’um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa; mas para que fugir?

Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de candidez. Então, afastando-me, respondi:

–Você é que nunca me teve amor.

–Eu?

–Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias… é uma egoista sem nome!

Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos, susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a.

–Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho; se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer… Ah! meu Deus! meu Deus!

–Socegue; olhe que podem ouvil-a.

–Que ouçam! Não me importa.

Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos ambos; minutos depois, tornávamos ao assumpto da casinha solitaria, em alguma rua escusa…

CAPITULO LXV

Olheiros e escutas

Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.

–Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o melhor é não receber.

–Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.

–Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!

–Que entre!

A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas era impossivel mostrar maior alvoroço.

–Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi hontem ao theatro?

–Uma enxaqueca.

–Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta annos… ou perto disso… Não tem quarenta annos?

–Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença, vou consultar a certidão de baptismo.

–Vá, vá… E estendendo-me a mão:–Até quando? Sabbado ficamos em casa; o barão está com umas saudades suas…

Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras; mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio, remexendo a alma e a vida dos outros.

A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.

Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto, desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras, vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a tactica e maciez das cobras.

CAPITULO LXVI

As pernas

Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés.

Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes uma á outra:–Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas, o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.

CAPITULO LXVII

A casinha

Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:

«Meu B...

«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para
sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz

«V...a»

Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella, contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior, a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer.

–O melhor é fugirmos, insinuei.

–Nunca, respondeu ella abanando a cabeça.

Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.

Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janellas na frente e duas de cada lado,–todas com venezianas côr de tijolo,–trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão. Um brinco!

Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia, em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente o resto.

Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;–dalli para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros, sem escutas,–um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só affeição,–a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das que me eram contrarias.

CAPITULO LXVIII

O vergalho

Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m’as um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas unicas palavras:

–«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.

–Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!

–Meu senhor! gemia o outro.

–Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei… Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudencio,–o que meu pae libertára alguns annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção; perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.

–E, sim, nhonhô.

–Fez-te alguma cousa?

–É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a quitanda para ir na venda beber.

–Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

–Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo, e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de se desfazer das pancadas recebidas,–transmittindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!

CAPITULO LXIX

Um grão de sandice

Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa maneira de a explicar.

–Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr’ora fui Romualdo, mas adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer Tartaros.

Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.

CAPITULO LXX

D. Placida

Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.

E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de terra, que lhes deu algumas illusões.

Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa.

Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria, carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida era minha sogra.

Não fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,–os cinco contos achados em Botafogo,–como um pão para a velhice. D. Placida agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.

CAPITULO LXXI

O senão do livro

Começo a arrepender-me deste livro. Não que elle me cance; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse mundo sempre é tarefa que distráe um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadaverica; vicio grave, e aliás infimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e o meu estylo são como os ebrios, guinam á direita e á esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o ceu, escorregam e cáem…

E cáem!–Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia uma lagrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que se não deixa boca para rir, tambem não deixa olhos para chorar… Heis de cair. Turvo é o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos allumia, com ser de toda a gente, é um sol opaco e reles, de cemiterio e carnaval.

CAPITULO LXXII

O bibliomano

Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha* ahi, nas ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu não quero dar pasto á critica do futuro.

Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a pagina anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro e por fóra, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica sempre o mesmo desproposito.

É um bibliomano. Não conhece o autor; este nome de Braz Cubas não vem nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar, unico… Unico! Vós, que não só amaes os livros, senão que padeceis a mania delles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes, portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a corôa das Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os houvesse de trocar por esse unico exemplar; e não porque seja o das minhas Memorias; faria a mesma cousa com o Almanak de Laemmert, uma vez que fosse unico.

O peor é o desproposito. Lá continúa o homem inclinado sobre a pagina, com uma lente no olho direito, todo entregue á nobre e aspera funcção de decifrar o desproposito. Já prometteu a si mesmo escrever uma breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo, não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se á janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico! Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell, a caminho do poder. Elle dá de hombros, fecha a janella, estira-se na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles… Um exemplar unico!

CAPITULO LXXIII

O lunch

O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor não era dizer as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu estylo ao andar dos ebrios. Se a idéa vos parece indecorosa, direi que elle é o que eram as minhas refeições com Virgilia, na casinha da Gamboa, onde ás vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso lunch. Vinho, fructas, compotas. Comiamos, é verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor. Ás vezes vinha o arrufo temperar o nimio adocicado da situação. Ella deixava-me, refugiava-se n’um canto do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida. Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a narração, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a sentar-se comnosco á meza; mas D. Placida não aceitava nunca.

–Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia.

–Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o tecto. Não gosto de Yayá! Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo?

E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até molharem-se-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgilia acariciou-a muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.

CAPITULO LXXIV

Historia de D. Placida

Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu a achasse só em casa, travámos palestra, e ella contou-me em breves termos a sua historia. Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fóra. Perdeu o pae aos dez annos. Já então ralava côco e fazia não sei que outros misteres de doceira, compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate, que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva, com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e a mãe, cançada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianças do bairro, a dez tostões por mez. Com isto iam-se passando os annos, não a belleza, porque não a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros, propostas, seducções, a que resistia.

–Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me teria casado; mas ninguem queria casar commigo.

Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fóra e a escumar os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de emprestimo e de occasião, que lh’a pediam. E bradava:

–Queres ser melhor do eu? Não sei donde te vem essas fiducias de pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja á toa; não se come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Polycarpo da venda, coitado…Esperas algum fidalgo, não é?

D. Placida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fôra, e conhecia algumas que tinham só o seu moço dellas; mas era genio e queria ser casada. Não queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito, queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candieiro, para comer e não cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscripção, e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadocios que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados, levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graçolas, faziam comprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro…

Interrompeu-se um instante, e continuou logo:

–Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber… Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo que conheci a familia de Yayá; boa gente, que me deu que fazer, e até chegou a me dar casa. Estive lá muitos mezes, um anno, mais de um anno, aggregada, costurando. Saí quando Yayá casou. Depois vivi como Deus foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos… E mostrou-me as mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.–Não se cria isto á toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria… Felizmente, Yayá me protegeu, e o senhor doutor tambem… Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola…

Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se tornasse a si, pareceu attentar na inconveniência daquella confissão ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, «cheia de fiducias», como lhe dizia a mãe; enfim, cançada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a ponta do botim.

CAPITULO LXXV

Commigo

Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo anterior, observo que é preciso lel-o para entender o que eu disse commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi isto:

–Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuncção de luxurias vadias brotou D. Placida. É de crer que D. Placida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:–Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe respondi riam:–Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n’um momento de sympathia.

CAPITULO LXXVI

O estrume

Subito deu-me a consciência um repellão; accusou-me de ter feito capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era, melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio, á custa de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou que eu me aproveitára da fascinação exercida por Virgilia sobre a ex-costureira, da gratidão desta, emfim da necessidade. Notou a resistência de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar tudo isso, até vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e nervoso.

Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensação. E raciocinei então que, se não fossem os meus amores, provavelmente D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vicio é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e sã. A consciência concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia.

CAPITULO LXXVII

Entrevista

Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias, envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n’uma especie de manteu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canapé, offegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra occasião a achei tão bella, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.

Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor era a mesma; a differença é que a chamma perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo e constante, como nos casamentos.

–Estou muito zangada com você, disse ella sentando-se.

–Porque?

–Porque não foi lá hontem, como me tinha dito. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Porque é que não foi?

Com effeito, eu havia faltado á palavra que dera, e a culpa era toda de Virgilia, Questão de ciúmes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera, em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum sobresalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cançaço, e disse muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas occasiões, e eu ouvi-a quasi sem responder nada.

Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe o motivo da minha ausencia… Não, eternas estrellas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma estupefacção visivel, tangivel, que senão podia negar, tal foi a primeira replica de Virgilia; abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me confundiu.

–Ora você!

E foi tirar o chapéo, lepida, jovial, como a menina que torna do collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na testa, com um só dedo, a repetir;–Isto, isto;–e eu não tive remedio senão rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganára.

CAPITULO LXXVIII

A presidencia

Certo dia, mezes depois, entrou o Lobo Neves em casa, dizendo que iria talvez occupar uma presidencia de provincia. Olhei para Virgilia, que empallideceu; elle, que a viu empallidecer, perguntou-lhe:

–A modo que não gostaste, Virgilia?

Virgilia abanou a cabeça.

–Não me agrada muito, foi a sua resposta.

Não se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projecto, um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dous dias depois declarou á mulher que a presidencia era cousa definitiva. Virgilia não pôde dissimular a repugnancia que isto lhe causava. O marido respondia a tudo com as necessidades politicas. E accrescentava:

–Não posso recusar o que me pedem; é até conveniencia nossa, do nosso futuro, dos teus brazões, meu amor, porque eu prometti que serias marqueza, e nem baroneza estás. Dirás que sou ambicioso? Sou-o devéras, mas é preciso que me não ponhas um peso nas azas da ambição.

Virgilia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa da Gamboa, á minha espera; tinha dito tudo a D. Placida, que buscava consolal-a, como podia. Não fiquei menos abatido.

–Você hade ir comnosco, disse-me Virgilia.

–Está douda? Seria uma insensatez.

–Mas então…?

–Então, é preciso desfazer o projecto.

–É impossível.

–Já aceitou?

–Parece que sim.

Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da mão; D. Placida foi á janella.

–Nesta pequenina mão está toda a minha existencia, disse eu; voce é responsavel por ella; faça o que lhe parecer.

Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos sómente o latir de um cão, e não sei se o rumor da agua, que morria na praia. Vendo que não falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na attitude da suprema desesperança. N’outra occasião, por differente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés della, e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém, era preciso compellil-a ao esforço de si mesma, ao sacrificio, á responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a, deixal-a, e saír; foi o que fiz.

–Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.

Virgilia quiz agarrar-me, mas eu já estava fóra da porta. Cheguei a ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e sai.

CAPITULO LXXIX

Compromisso de gato

Não acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas primeiras horas. Vacillava entre um querer e um não querer, entre a piedade que me empuxava á casa de Virgilia e outro sentimento,–egoismo, supponhamos,–que me dizia:–Fica; deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ella o resolverá no sentido do amor. Creio que essas duas forças tinham egual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. Ás rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular, vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução.

Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria vel-a em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer nada, á espera do effeito da minha intimação. Deste modo, poderia conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um fórma de egoismo, e que a resolução de ir consolar Virgilia não passava de uma suggestão de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um naturalista,–não me lembra qual,–mas era um naturalista,–em quem li esta observação curiosa: «O gato não nos affaga, affaga-se em nós.» Vejo que eu fazia um compromisso de gato.

CAPITULO LXXX

Do secretario

Na noite seguinte fui effectivamente á casa do Lobo Neves; estavam ambos, Virgilia muito triste, elle muito jovial. Juro que ella sentiu certo allivio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou expresso no capitulo anterior, in fine. O Lobo Neves contou-me os planos que levava para a presidencia, as difficuldades locaes, as esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! Virgilia, ao pé da meza, fingia ler um livro, mas por cima da pagina olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.

–O peor, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei secretario.

–Não?

–Não, e tenho uma idéia.

–Ah!

–Uma idéa… Quer você dar um passeio ao norte? Não sei o que lhe disse.

–Você é rico, continuou elle, não precisa de um magro ordenado; mas se quizesse obsequiar-me, ia de secretario commigo.

Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento occulto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive animo de olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar della, que me pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um modo administrativo.

CAPITULO LXXXI

A reconciliação

E comtudo, ao sair de lá, tive umas sombras de duvida; cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgilia, se não haveria outro meio razoavel de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia seguinte, ao levantar-mo da cama, trazia o espirito feito e resoluto a aceitar a nomeação. Ao meio dia, veiu o creado dizer-me que estava na sala uma senhora, coberta com um véo. Corro; era minha irmã Sabina.

–Isto não pode continuar assim, disse ella; é preciso que, de uma vez por todas, façamos as pazes. Nossa familia está acabando; não havemos de ficar como dous inimigos.

–Mas se eu não te peço outra cousa, mana! bradei eu estendendo-lhe os braços.

E sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negocios, de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido viria mostrar-m’a, se eu consentissse.

–Ora essa! irei eu mesmo vel-a.

–Sim?

–Palavra.

–Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.

Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte annos, e contava mais de trinta. Graciosa, affavel, nenhum acanhamento, nenhum resentimento. Olhavamos um para o outro, com as mãos seguras, falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era a minha infancia que resurgia, fresca, travessa e loura; os annos iam caindo, como as fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa familia, as nossas festas. Supportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da visinhança lembrou-se de zangarrear na classica rabeca, e essa voz,–porque até então a recordação era muda,–essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me commoveu, que…

Os olhos della estavam seccos. Sabina não herdára a flor amarella e mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lh’o com ternura, com sinceridade… Subito, ouço bater á porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco annos.

–Entra, Sára, disse Sabina.

Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada, empurrava-me o hombro com a mãosinha, quebrando o corpo para descer… Nisto, apparece-me á porta um chapéu, e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão commovido, que deixei a filha e lancei-me aos braços do pae. Talvez essa effusão o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples prologo. Dahi a pouco falavamos como bons amigos velhos. Nenhuma allusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em casa um do outro; e não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção, por que eu andava com idéas de uma viagem ao norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para Sabina; ambos concordaram que essas idéas não tinham senso commum. Que diacho podia eu achar no norte? Pois não era na côrte, em plena côrte, que devia continuar a luzir, a metter n’um chinello os rapazes do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; elle, Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridicula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triumphos. Ouvia o que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns mezes na provincia, sem necessidade, sem motivo serio? A menos que não fosse politica…

–Justamente política, disse eu.

–Nem assim, replicou elle dahi a um instante–E depois de outro silencio:–Seja como for, venha jantar hoje comnosco.

–Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar commigo.

–Não sei, não sei, objectou Sabina; casa de homem solteiro… Você precisa casar, mano. Tambem eu quero uma sobrinha, ouviu?

O Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a reconciliação de uma familia vale bem um gesto enigmatico.

CAPITULO LXXXII

Questão de botanica

Digam o que quizerem dizer os hypocondriacos: a vida é uma cousa doce. Foi o que eu pensei commigo, ao ver Sabina, o marido e a filha descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras affectuosas para cima, onde eu ficava–no patamar,–a dizer-lhes outras tantas para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me uma mulher, tinha a confiança do marido, ia por secretario de ambos, e reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro horas?

Nesse mesmo dia, tratando de apparelhar os animos, comecei a espalhar que talvez fosse para o norte, como secretario de provincia, afim de realizar certos designios politicos, que me eram pessoaes. Disse-o na rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no theatro. Alguns, ligando a minha nomeação á do Lobo Neves, que já andava em boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no hombro. No theatro disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da esculptura. Referia-se ás bellas fórmas de Virgilia.

Mas a allusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tres dias depois. Fel-a um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa annos, sem adquirir jamais aquella compostura austera, que é a gentileza do ancião. A velhice ridicula é, porventura, a mais triste e derradeira sorpresa da natureza humana.

–Já sei, desta vez vae ler Cicero, disse-me elle, ao saber da viagem.

–Cicero! exclamou Sabina.

–Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz Virgilio de relance. Olhe que é Virgilio, e não Virgilia… não confunda…

E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu sorrir, e voltou o rosto para disfarçal-o. As outras pessoas olhavam-me com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso,–palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia era um bello erro, e é tão facil confessar um bello erro! Costumava ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma allusão aos nossos amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão suave e linsongeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o das outras vezes. Não sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento, sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado; andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do proximo. Simples questão de botanica.

CAPITULO LXXXIII

13

O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me á janella.–Você quer que lhe diga uma cousa? perguntou elle;–não faça essa viagem; é insensata, é perigosa.

–Porque?

–Você bem sabe porque, tornou elle: é, sobretudo, perigosa, muito perigosa. Aqui na côrte, um caso desses perde-se na multidão da gente e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de personagens politicos, é realmente insensatez. As gazetas de opposição, logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras, e ahi virão as chufas, os remoques, as alcunhas…

–Mas não entendo…

–Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito, não faça semelhante viagem; supporte a ausencia, que é melhor, e evite algum grande escandalo e maior desgosto…

Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina,–um antigo lampião de azeite,–triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me á fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a. Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O lampião não me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez. Talvez o Cotrim tivesse razão: mas podia eu separar-me de Virgilia?

Sabina veiu ter commigo, e perguntou-me em que estava pensando. Respondi que em cousa nenhuma, que tinha somno e ia para casa. Sabina esteve um instante calada.–O que você precisa, sei eu; é uma noiva. Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para você. Saí de lá oppresso, desorientado. Tudo prompto para embarcar,–espirito e coração,–e eis ahi me surge esse porteiro das conveniencias, que me pede o cartão de ingresso. Dei ao diabo as conveniências, e com ellas a constituição, o corpo legislativo, o ministerio, tudo.

No dia seguinte, abro uma folha politica e leio a noticia de que, por decretos de 13, tínhamos sido nomeados presidente e secretario da provincia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi immediatamente a Virgilia, e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Placida! Estava cada vez mais afflicta; perguntou-me se esqueceriamos a nossa velha, se a ausencia era grande e se a provincia ficava longe. Consolei-a; mas eu proprio precisava de consolações; a objecção do Cotrim affligia-me profundamente. Virgilia chegou dahi a pouco, lepida como uma andorinha; mas, ao ver-me triste, ficou muito seria.

–Que aconteceu?

–Vacillo, disse eu; não sei se devo aceitar…

Virgilia deixou-se cair, no canapé, a rir.–Porque? disse ella.

–Não é conveniente, dá muito na vista…

–Mas nós já não vamos.

–Como assim?

Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por motivo que só disse a ella, pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessal-o a ninguem mais.–É pueril, observou elle, é ridiculo; mas em summa, é um motivo poderoso para mim. E referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse numero significava para elle uma recordação funebre. O pae morreu n’um dia 13, treze dias depois de um jantar, em que havia treze pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n. 13. Et cætera. Era um algarismo fatidico. Não podia allegar semelhante cousa ao ministro; dir-lhe-hia que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei como ha de estar o leitor,–um pouco assombrado com esse sacrifício a um numero; mas, sendo elle ambicioso, o sacrificio devia ser sincero… E ficavamos. Para alguma cousa ha de servir a superstição dos homens.

CAPITULO LXXXIV

O conflicto

Numero fatidico, lembras-te que te abençoei muitas vezes? Assim tambem as virgens ruivas de Thebas deviam abençoar a egua, de ruiva crina, que as substituiu no sacrificio de Pelopidas,–uma donosa egua, que lá morreu, coberta de flores, sem que ninguem lhe désse nunca uma palavra de saudade. Pois dou-t’a eu, egua piedosa, não só pela morte havida, como porque, entre as donzellas escapas, não é impossivel que figurasse uma avó dos Cubas… Numero fatidico, tu foste a nossa salvação. Não me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tambem que eram negocios particulares, e o rosto serio, convencido, com que eu o escutei, fez honra á dissimulação humana. Elle é que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se, mettia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e então conversava e ria muito, com estrepito e affectação. Opprimiam-n’o duas cousas,–a ambição, que um escrupulo desazára, e logo depois a duvida, e talvez o arrependimento,–mas um arrependimento, que viria outra vez, si se repetisse a hypothese, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava da superstição, sem chegar a rejeital-a. Essa persistencia de um sentimento, que repugna ao mesmo individuo, era um phenomeno digno de alguma attenção. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Placida, quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar.

–Que tem isso? perguntava-lhe eu.

–Faz mal, era a sua resposta.

Isto somente, esta unica resposta, que valia para ella o livro dos sete sellos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação; e ella contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma cousa quando se falava de apontar uma estrella com o dedo; ahi sabia perfeitamente que era caso de crear uma verruga.

Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem não perde uma presidencia de provincia? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata; é insupportavel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo Neves; com o accrescimo da duvida e do terror de haver sido ridiculo. E mais este outro accrescimo, que o ministro não acreditou nos motivos particulares; attribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos politicos, illusão complicada de algumas apparencias; tratou-o mal, communicou a desconfiança aos collegas; sobrevieram incidentes; emfim, com o tempo, o presidente resignatario foi para a opposição.

CAPITULO LXXXV

O cimo da montanha

Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia não fez mais do que avivar a affeição primitiva; foi a droga de Malabar, com que tornámos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a dôr da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro, á proporção que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando entre nós; e, semelhantes ás crianças, que se achegam ao regaço das mães, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo, apertando-nos com abraços.

–Minha boa Virgilia!

–Meu amor!

–Tu és minha, não?

–Tua, tua…

E assim reatámos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo da montanha, donde por algum tempo divisámos os valles de leste e de oeste, e por cima de nós o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo, começámos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a descer, a descer…

CAPITULO LXXXVI

O mysterio

Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, não sei se abatida ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de enfado, de máu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que… Um fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensação forte; rapida, singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza de zephyro e uma gravidade de Abrahão. Ella estremeceu, colheu-me a cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um gesto maternal…Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mysterio.

CAPITULO LXXXVII

Geologia

Succedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou ahi de relance, n’um capitulo, com os seus setenta annos, abafados de asthma, desconjuntados de rheumatismo, e uma lesão de coração por quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgilia nutria grandes esperanças em que esse velho parente, avaro como um sepulchro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se o marido tinha eguaes pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os. Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental, uma camada de rocha, que resistia ao commercio dos homens. As outras, as camadas de cima, terra solta e arêa, levou-lh’as a vida, que é um enxurro perpetuo. Se o leitor ainda se lembra do cap. XXXIII, observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro; mas tambem ha de reparar que desta vez accrescento-lhe um adjectivo–perpetuo. E Deus sabe a força de um adjectivo, principalmente em paizes novos e cálidos.

O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves, e provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas camadas de caracter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a resistencia dellas, essas camadas mereceriam um capitulo, que eu não escrevo, por não alongar a narração. Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob Valladares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacob Rodrigues; em summa, Jacob. Era a probidade mesma; podia ser rico, violentando um pequenino escapulo, e não quiz; deixou ir pelas mãos fóra nada menos de uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava a ser miuda e cançativa. Um dia, como nos achassemos, a sós, em casa delle, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um sujeito enfadonho. O Jacob mandou dizer que não estava em casa.

–Não péga, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.

E, com effeito, era o Dr. B., que appareceu logo á porta da sala. O Jacob foi recebel-o, affirmando que cuidava ser outra pessoa, e não elle, e accrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque o Jacob tirou o relogio; o Dr. B. pergutou-lhe então se ia sair.

–Com minha mulher, disse o Jacob.

Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao Jacob que elle acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, accrescentando que com a mulher. O Jacob reflectiu um instante, depois confessou a justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompativel com um estado social adiantado, e que a paz das cidades só se podia obter á custa de embaçadellas reciprocas… Ah! lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares.

CAPITULO LXXXVIII

O enfermo

Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina, com os mais elementares argumentos; mas elle estava tão vexado do meu reparo, que resistiu até o fim, mostrando certo calor ficticio, talvez para atordoar a consciencia.

O caso de Virgilia tinha alguma gravidade mais. Ella era menos escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortezias, attenções e affagos que poderiam render, pelo menos, um codicillo. Propriamente, adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se com a affeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza physica dão á acção lisonjeira da mulher uma côr local, um aspecto legitimo. Não importa a edade do adulado; a mulher ha de ter sempre para elle uns ares de mãe ou de irmã,–ou ainda de enfermeira, outro officio feminil, em que o mais habil dos homens carecerá sempre de um quid, um fluido, alguma cousa.

Era o que eu pensava commigo, quando Virgilia se desfazia toda em affagos ao velho parente. Ella ia recebel-o á porta, falando e rindo, tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o até uma cadeira, ou até á cadeira, porque havia lá em casa a «cadeira do Viegas», obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã. Ia fechar a janella proxima, se havia alguma brisa, ou abril-a, se estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não désse um golpe de ar.

–Então? hoje está mais fortesinho…

–Qual! Passei mal a noite; o diabo da asthma não me deixa.

E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cançaço da entrada e da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco mais para a frente, sentava-se Virgilia, n’uma banquinha, com as mãos nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava á sala, sem os pulos do costume, mas discreto, meigo, serio. O Viegas gostava muito delle.

–Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, mettia uma na boca o dava outra ao pequeno. Pastilhas anti-asthmaticas. O pequeno dizia que eram muito boas.

Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas, Virgilia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na chacara, dando-lhe ella o braço, que elle nem sempre aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma legua. Iam, sentavam-se, tornavam a ir, a falar de cousas varias, ora de um negocio de familia, ora de uma bisbilhotice de alcova, ora emfim de uma casa que elle meditava construir, para residencia propria, casa de feitio moderno, porque a delle era das antigas, contemporânea de el-rei D. João VI, á maneira de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S. Christovão, com as suas grossas columnas na frente. Parecia-lhe que o casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encommendado o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgilia chegaria a ver o que era um velho de gosto.

Falava, como se póde suppôr, lentamente e a custo, intervallado de uma arfagem incommoda para elle e para os outros. De quando em quando, vinha um accesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço á boca, e investigava-o; passado o accesso, tornava ao plano da casa, que devia ter taes e taes quartos, um terraço, cocheira, um primor.

CAPITULO LXXXIX

In extremis

–Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ella uma vez. Coitado! não tem ninguem…

O Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgilia ia lá de quando em quando. Eu aproveitei a circumstancia para passar todo aquelle dia ao pé della. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervallo dos accessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O sujeito offerecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas o Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois mais dous, depois mais tres, emfim teve um forte accesso, que lhe tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito, arranjou-lhe os travesseiros, offereceu-lhe trinta e seis contos.

–Nunca! gemeu o enfermo.

E mandou buscar um maço de papeis á escrivaninha; não tendo forças para tirar a fita de borracha que prendia os papeis, pediu-me que os deslaçasse: fil-o. Eram as contas das despezas com a construcção da casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas das ferragens; custo do terreno. Elle abria-as, uma por uma, com a mão tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.

–Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças francezas… Veja, é de graça, concluiu elle depois de lida a ultima conta.

–Pois bem… mas…

–Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os juros… faça a conta dos juros…

Vinham tossidas estas palavras, ás golfadas, ás syllabas, como se fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas orbitas fundas rolavam os olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob o lençol desenhava-se a estructura ossea do corpo, pontudo em dous lugares, nos joelhos e nos pés; a pelle amarellada, bamba, rugosa, revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça de algodão branco cobria-lhe o craneo rapado pelo tempo.

–Então? disse o sujeito magro.

Fiz-lhe signal para que não insistisse, e elle calou-se por alguns instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito; Virgilia empallideceu, levantou-se, foi até á janella. Suspeitara a morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro contou uma anecdota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.

–Trinta e oito contos, disse elle.

–Am?… gemeu o enfermo.

O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa, se queria tomar um calice de vinho.

–Não… não… quar… quaren… quar… quar…

Teve um accesso de tosse, e foi o ultimo; dahi a pouco expirava elle, com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a disposição em que estava de offerecer os quarenta contos; mas era tarde.

CAPITULO XC

O velho colloquio de Adão e Caim

E nada. Nenhuma lembrança testamentaria, uma pastilha que fosse, com que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada. Virgilia tragou raivosa esse mallogro, e disse-m’o com certa cautela, não pela cousa em si, senão porque entendia com o filho, de quem sabia que eu não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que não devia pensar mais em semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa, um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por exemplo.

Lá me escapou a decifração do mysterio, esse doce mysterio de algumas semanas antes, quando Virgilia me pareceu um pouco differente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preoccupação exclusiva daquelle tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do Viegas, nada me interessava por então, nem conflictos politicos, nem revoluções, nem terremotos, nem nada. En só pensava naquelle embryão anonymo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa voluptuosidade indefinivel, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me homem.

O melhor é que conversávamos os dous, o embryão e eu, falavamos de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãosinhas gordas, ou então traçava a beca de bacharel, porque elle havia de ser bacharel, e fazia um discurso na camara dos deputados. E o pae a ouvil-o de uma tribuna, com os olhos rasos de lagrimas. De bacharel passava outra vez á escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou então caía no berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espirito uma edade, uma attitude; esse embryão tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: elle mamava, elle escrevia, elle valsava, elle era o interminável nos limites de um quarto de hora,–_baby_ e deputado, collegial e pintalegrete. Ás vezes, ao pé de Virgilia, esquecia-me della e de tudo; Virgilia sacudia-me, reprochava-me o silencio, dizia que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava em dialogo com o embryão; era o velho colloquio de Adão e Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mysterio e o mysterio.

CAPITULO XCI

Uma carta extraordinaria

Por esse tempo recebi uma carta extraordinaria, acompanhada de um objecto não menos extraordinario. Eis o que a carta dizia:

«Meu caro Braz Cubas.

«Ha tempos, no Passeio Publico, tomei-lhe de emprestimo
um relogio. Tenho a satisfação de restituir-lh'o com esta
carta. A differença é que não é o mesmo, porém outro, não
digo superior, mas egual ao primeiro. _Que voulez-vous,
monseigneur_,--como dizia Figaro,--_c'est la misère._ Muitas
cousas se deram depois do nosso encontro; irei contal-as
pelo miudo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago
aquellas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca
cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau
da escada de S. Francisco; finalmente, almóço.

«Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe
um trabalho, fructo de longo estudo, um novo systema de
philosophia, que não só explica e descreve a origem e a
consummação das cousas, como faz dar um grande passo adeante
de Zenon e Seneca, cujo stoicismo era um verdadeiro brinco
de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente
espantoso este meu systema; rectifica o espirito humano,
supprime a dor, assegura a felicidade, e enche de immensa
gloria o nosso paiz. Chamo-lhe humanitismo, de _Humanitas_,
principio das cousas. Minha primeira idéa revelava uma grande
enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação
vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia
menos. Verá, meu caro Braz Cubas, verá que é devéras um
monumento; e se alguma cousa ha que possa fazer-me esquecer
as amarguras da vida, é o gosto de haver emfim apanhado
a verdade e a felicidade. Eil-as na minha mão essas
duas esquivas; após tantos seculos de lutas, pesquizas,
descobertas, systemas e quédas, eil-as nas mãos do homem. Até
breve, meu caro Braz Cubas. Saudades do

Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.»

Li esta carta sem entendel-a. Vinha com ella uma boceta contendo um bonito relogio com as minhas iniciaes gravadas, e esta phrase: Lembrança do velho Quincas. Voltei á carta, reli-a com pausa, com attenção. A restituição do relogio excluia toda a idéa de burla; a lucidez, a serenidade, a convicção,–um pouco jactanciosa, é certo,–pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; ha cousas que se não podem rehaver integralmente; mas emfim a regeneração não era impossivel. Guardei a carta e o relogio, e esperei a philosophia.

CAPITULO XCII

Um homem extraordinario

Já agora acabo com as cousas extraordinarias. Vinha de guardar a carta e o relogio, quando me procurou um homem magro e meão, com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado com uma irmã do Cotrim, chegára poucos dias antes do norte, chamava-se Damasceno, e fizera a revolução de 1831. Foi elle mesmo que me disse isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por desaccordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com elle. De resto, a revolução estava outra vez ás portas. Neste ponto, comquanto trouxesse as idéas politicas um pouco baralhadas, consegui organisar e formular o governo de suas preferencias: era um despotismo temperado,–não por cantigas, como dizem alhures,–mas por pennachos da guarda nacional. Só não pude alcançar se elle queria o despotismo de um, de tres, de trinta ou de tresentos. Opinava por varias cousas, entre outras, o desenvolvimento do trafico dos africanos e a expulsão dos inglezes. Gostava muito de theatro; logo que chegou foi ao theatro de S. Pedro, onde viu um drama soberbo, a Maria Joanna, e uma comedia muito interessante, Kettly, ou a volta á Suissa. Tambem gostara muito da Deperini, na Sapho, ou na Anna Bolena, não se lembrava bem. Mas a Candiani! sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o Ernani, que a filha delle cantava em casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami…–E dizia isto levantando-se e cantarolando a meia voz.–No norte essas cousas chegavam como um echo. A filha morria por ouvir todas as operas. Tinha uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! elle estava ancioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda, com umas saudades… Palavra! em alguns logares teve vontade de chorar. Mas não embarcaria mais. Enjoára muito a bordo, como todos os outros passageiros, excepto um inglez… Que os levasse o diabo os inglezes! Isto não ficava direito sem irem todos elles barra fóra. Que é que a Inglaterra podia fazer-nos? Se elle encontrasse algumas pessoas de boa vontade, era obra de uma noite a expulsão dos taes godemes… Graças a Deus, tinha patriotismo,–e batia no peito,–o que não admirava porque era de familia; descendia de um antigo capitão-mór muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a occasião, e elle havia de mostrar de que pau era a canoa… Mas fazia-se tarde, ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para maior palestra.–Levei-o até á porta da sala; elle parou dizendo que sympathisava muito commigo. Quando casára, estava eu na Europa. Conheceu meu pae, um homem ás direitas, com quem dansára n’um celebre baile da Praia Grande… Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a porta… Uf!

CAPITULO XCIII

O jantar

Que supplicio que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé da filha do Damasceno, uma D. Eulalia, ou mais familiarmente Nhã-lóló, moça bem graciosa, um tanto acanhada a principio, mas só a principio. Faltava-lhe elegancia, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, excepto quando desciam ao prato; mas Nhã-lóló comia tão pouco, que quasi não olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pae, «muito mimosa». Não obstante, esquivei-me. Sabina veiu até á porta, e perguntou-me que tal achára a filha do Damasceno.

–Assim, assim.

–Muito sympathica, não é? acudiu ella; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que coração! é uma perola. Bem boa noiva para você.

–Não gosto de perolas.

–Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, ha de casar com Nhã-lóló.

E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéa, mas uma voz mysteriosa chamava-me á casa do Lobo Neves, disse adeus a Sabina e ás suas ameaças.

CAPITULO XCIV

A causa secreta

–Como está a minha querida mamãe?

A esta palavra, Virgilia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma janella, sosinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas quando lhe falei no nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante allusão, aborreciam-lhe as minhas anticipadas caricias paternaes. E eu, para quem ella era já uma pessoa sagrada, uma ambula divina, deixava-a estar quieta. Suppuz a principio que o embryão, esse perfil do incognito, projectando-se na nossa aventura, lhe restituira a consciência do mal. E enganava-me. Nunca Virgilia me parecera mais expansiva, mais sem reservas, menos preoccupada dos outros e do marido. Não eram remorsos. Imaginei tambem que a concepção seria um puro invento, um modo de prender-me a ella, recurso sem longa efficacia, que talvez começava de opprimil-a. Não era absurda esta hypothese; a minha doce Virgilia mentia ás vezes, com tanta graça!

Naquella noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, dava-lhe já imaginariamente os calefrios do patibulo. Quanto ao vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos habitos da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lh’o a entender, reprehendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pae. Virgilia fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um geito incredulo.

CAPITULO XCV

Flores de antanho

Onde estão ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas de gestação, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes. Foi-se o embryão, naquelle ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na sala, e acompanhou o medico á alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me á janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem flores. Onde iam ellas as flores de antanho?

CAPITULO XCVI

A carta anonyma

Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mão tremula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim; mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo, dahi a dias na Gamboa.

O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era anonyma e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a carta e disse com indignação que era uma calumnia infame.

–Calumnia? perguntou o Lobo Neves.

–Infame.

O marido respirou; mas, tornando á carta, parece que cada palavra della lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a indignação da mulher. Esse homem, aliás intrepido, era agora a mais fragil das creaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o famoso olho da opinião, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle escutara ou dissera outr’ora. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum namorado sem ventura. E citou alguns,–um que a galanteára francamente, durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem á calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu não voltaria lá.

Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo accrescimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela falta de commoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgilia notou a minha preoccupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava então para o soalho, e disse-me com certa amargura:

–Você não merece os sacrifícios que lhe faço.

Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria á nossa situação o sabor caustico dos primeiros dias; mas se lh’o dissesse, não é impossivel que ella chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse nada. Ella batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto.

CAPITULO XCVII

Entre a boca e a testa

Sinto que o leitor estremeceu,–ou devia estremecer. Naturalmente a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexões. Veja bem o quadro: n’uma casinha da Gambôa*, duas pessoas que se amam ha muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver. Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e depois do beijo, ha ahi largo espaço para muita cousa,–a contracção de um resentimento,–a ruga da desconfiança,–ou emfim o nariz pallido e somnolento da saciedade..

CAPITULO XCVIII

Supprimido

Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta anonyma restituia á nossa aventura o sal do mysterio e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que Virgilia não perdesse naquella crise a posse de si mesma. De noite fui ao theatro de S. Pedro; representava-se uma grande peça, em que a Estella arrancava lagrimas. Entro; corro os olhos pelos camarotes; vejo em um delles o Damasceno e a familia. Trajava a filha com outra elegancia e certo apuro, cousa difficil de explicar, porque o pae ganhava apenas o necessario para endividar-se; e dahi, talvez fosse por isso mesmo.

No intervallo fui visital-os. O Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-lóló, não tirou mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etherea casada ao polido das fórmas terrenas:–expressão vaga, e condigna de um capitulo em que tudo ha de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cocegas de Tartuffo. Ao contemplal-o, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessaria ao desenvolvimento da nossa especie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do individuo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuario, negaceando a natureza, aguça e attráe as vontades, activa-as, reprodul-as, e conseguintemente faz andar a civilisação. Abençoado uso que nos deu Othello e os paquetes transatlânticos!

Estou com vontade de supprimir este capitulo. O declive é perigoso. Mas emfim eu escrevo as minhas memorias e não as tuas, leitor pacato. Ao pé da graciosa donzella, parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinivel. Ella exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, l’ange et la bête, com a differença que o jansenista não admittia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que ellas ahi estavam bem juntinhas,–_l’ange_, que dizia algumas cousas do ceu,–e la bête, que… Não; decididamente supprimo este capitulo.

CAPITULO XCIX

Na platéa

Na platéa achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falámos por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervallo seguinte, prestes a levantar o panno, encontramo-nos n’um dos corredores, em que não havia ninguem. Elle veiu a mim, com muita affabilidade e riso, puxou-me a um dos oculos do theatro, e falamos muito, principalmente elle, que parecia o mais tranquillo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação para assumptos geraes, expansivo, quasi risonho. Adivinhe quem quizera causa da differença; eu fujo ao Damasceno que me espreita alli da porta do camarote.

Não ouvi nada do seguinte acto, nem as palavras dos actores, nem as palmas do publico. Reclinado na cadeira, apanhava de memoria os retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras delle, e concluia que era muito melhor a nova situaçao. Bastava-nos a Gamboa. A frequencia da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podiamos dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, mettia a saudade de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta annos, e não era nada, nem simples eleitor de parochia. Urgia fazer alguma cousa, ainda por amor de Virgilia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome… Creio que nessa occasião houve grandes applausos, mas não juro; eu pensava em outra cousa.

Multidão, cujo amor cobicei até á morte, era assim que eu me vingava ás vezes de ti; deixava borborinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometheu de Eschylo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indifferença, ou da tua agitação? Frageis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa é ir considerar no ermo. O voluptuoso, o exquisito, é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheiado, inaccessivel, ausente. O mais que podem dizer, quando elle torna a si,–isto é, quando torna aos outros,–é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cerebro, que outra cousa é senão a affirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Vive Deus! eis um bom fecho de capitulo.

CAPITULO C

O caso provavel

Se esse mundo não fosse uma região de espiritos desattentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só affirmo certas leis, quando as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me á admissão da probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitue o presente capitulo, cuja leitura recommendo a todas as pessoas que amam o estudo dos phenomenos sociaes. Segundo parece, e não é improvavel, existe entre os factos da vida publica e os da vida particular uma certa acção reciproca, regular, e talvez periodica,–ou, para usar de uma imagem, ha alguma cousa semelhante ás marés da praia do Flamengo e de outras egualmente marulhosas. Com effeito, quando a onda investe a praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma agua torna ao mar, com variavel força, e vae engrossar a onda que ha de vir, e que terá de tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a applicação.

Deixei dito n’outra pagina que o Lobo Neves, nomeado presidente de provincia, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era 13; acto grave, cuja consequência foi separar do ministerio o marido de Virgilia. Assim, o facto particular da ogerisa de um numero produziu o phenomeno da dissidencia politica. Resta ver como, tempos depois, um acto politico determinou na vida particular uma cessação de movimento. Não convindo ao methodo deste livro descrever immediatamente esse outro phenomeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro mezes depois de nosso encontro no theatro, reconciliou-se com o ministerio; facto que o leitor não deve perder de vista, se quizer penetrar a subtileza do meu pensamento.

CAPITULO CI

A revolução dalmata

Foi Virgilia quem me deu noticia da vira-volta politica do marido, certa manhã de outubro, entre onze e meio dia; falou-me de reuniões, de conversas, de um discurso…

–De maneira que desta vez fica você baroneza, interrompi eu.

Ella derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado; mas esse gesto de indifferença era desmentido por alguma cousa menos definivel, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia attraíl-a á virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. Que ella amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de nossa vida foi o apparecimento de um certo pelintra de legação,–da legação da Dalmacia, supponhamos,–o conde B. V., que a namorou durante tres mezes.

Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça de Virgilia, que, além do mais, possuia a vocação diplomatica. Não chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmacia uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi sangrenta a revolução, dolorosa, formidavel; os jornaes, a cada navio que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade… Eu não; eu abençoava interiormente essa tragedia, que me tirára uma pedrinha do sapato. E depois a Dalmacia era tão longe!

CAPITULO CII

De repouso

Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou dahi a tempos… Não, não hei de contal-o nesta pagina; fique esse capitulo para repouso do meu vexame. Uma acção grosseira, baixa, sem explicação possivel… Repito, não contarei o caso nesta pagina.

CAPITULO CIII

Distracção

–Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.

Tinha razão D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperára muito, que se irritara, que chorara, que jurára* votar-me ao desprezo, e outras mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me que não desamparasse Yayá, que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um equivoco… E não era; cuido que foi simples distração. Um dito, uma conversa, uma anecdota, qualquer cousa; simples distracção.

Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabeça, suspirando com estrepito, espiando pela rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,–os bons doces de outros dias,–e muito riso, muito affago, um riso e um affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciára; nada, nem a calumnia, porque uma vez chegou a attribuir-me uma paixão nova.–Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me falou em semelhante cousa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste.

–Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade reconhecer que não tive culpa nenhuma… Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo?

–Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yayá, então sim, é que hade ver o anjo que ella é!

Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recommendo este gesto ás pessoas que não tiverem uma palavra prompta para responder, ou ainda ás que receiarem encarar a pupilla do outros olhos. Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas, outros adoptam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.

Tres dias depois, estava tudo explicado. Supponho que Virgilia ficou um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lagrimas que derramára naquella triste occasião; e não me lembra se interiormente as attribui a D. Placida. Com effeito, podia acontecer que D. Placida chorasse, ao vel-a desapontada, e, por um phenomeno da visão, as lagrimas que tinha nos proprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgilia. Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda esquecido. Virgilia dizia-me uma porção de cousas duras, ameaçava-me com a separação, emfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortezia e affeição; é o que ella dizia, emquanto eu, sentado, com os braços fincados nos joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!

–Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgilia, parando deante de mim.

–Que heide dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que heide dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que quer acabar…

–Justamente!

Foi dali pôr o chapéu, com a mão tremula, raivosa…–Adeus, D. Placida, bradou ella para dentro. Depois foi até á porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.–Está bom, está bom, disse-lhe. Virgilia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse; ella afastou-se da porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao pé della, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não affirmo se os nossos labios chegaram á distancia de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, sim, que na agitação caiu um brinco de Virgilia, que eu inclinei-me a apanhal-o, e que a mosca de ha pouco trepou ao brinco, levando sempre a formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso século, puz na palma da mão aquelle casal de mortificados; calculei toda a distancia que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver n’um episodio tão mofino. Se conclues dahi que eu era um barbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virgilia, afim de separar os dous insectos; mas a mosca farejou a minha intenção, abriu as azas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escriptura.

CAPITULO CIV

Era elle!

Restitui o grampo a Virgilia, que o repregou nos cabellos, e preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tres horas. Tudo estava esquecido e perdoado. D. Placida, que espreitava a occasião idonea para a saída, fecha subitamente a janella e exclama:

–Virgem Nossa Senhora! ahi vem o marido de Yayá!

O momento de terror foi curto, mas completo. Virgilia fez-se da côr* das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Placida, que fechára a rotula, queria fechar tambem a porta de dentro; eu dispuz-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgilia tornou a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Placida que voltasse á janella; a confidente obedeceu.

Era elle. D. Placida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de pasmo:–O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça favor. Adivinhe quem está cá… Não tem que adivinhar: não veiu por outra cousa… Appareça, Yayá.

Virgilia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pallido, frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala.

–Que é isto? exclamou Virgilia. Você por aqui?

–Ia passando, vi D. Placida á janella, e vim comprimental-a.

–Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma cousa… Olhae, gentes! Yayá parece estar com ciumes. E acariciando-a muito:–Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Placida. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe… Sente-se, senhor doutor…

–Não me demoro.

–Você vae para casa? disse Virgilia. Vamos juntos.

–Vou.

–Dê cá o meu chapéu, D. Placida.

–Está aqui.

D. Placida foi buscar um espelho, abriu-o deante della. Virgilia punha o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabellos, falando ao marido, que não respondia nada. A nossa boa velha tagarellava de mais; era um modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgilia, dominado o primeiro instante, tornára á posse de si mesma.

–Prompta! disse ella. Adeus, D. Placida; não se esqueça de apparecer, ouviu? A outra prometteu que sim, e abriu-lhes a porta.

CAPITULO CV

Equivalencia das janellas

D. Placida fechou a porta e caiu n’uma cadeira. Eu deixei immediatamente a alcova, e dei dous passos para sair á rua, com o fim de arrancar Virgilia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, porque D. Placida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei a suppor que não dissera aquillo senão para que ella me detivesse; mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais genuino e cordial não podia ser senão esse. E isto por aquella famosa lei da equivalencia das janellas, que eu tive a satisfação de descobrir e formular, no cap. LI. Era preciso arejar a consciencia. A alcova foi uma janella fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.

CAPITULO CVI

Jogo perigoso

Respirei e sentei-me. D. Placida atroava a sala com exclamações e lastimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; reflectia commigo se não era melhor ter fechado Virgilia na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria peior; confirmaria a suspeita, e chegaria o fogo á polvora e uma scena de sangue… Foi muito melhor assim. Mas depois? que ia acontecer em casa de Virgilia? Matal-a-hia o marido? espancal-a-hia? encerral-a-hia? expulsal-a-hia? Estas interrogações percorriam lentamente o meu cerebro, como os pontinhos e virgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto secco e tragico, e eu não podia agarrar um dellos e dizer: és tu, tu e não outro.

De repente vejo um vulto negro; era D. Placida, que fôra dentro, enfiára a mantilha, e vinha offerecer-se-me para ir á casa do Lobo Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque elle desconfiaria da visita tão proxima.

–Socegue, interrompeu ella; eu saberei arranjar as cousas. Se elle estiver em casa não entro.

Saiu; eu fiquei a ruminar o successo e as consequencias possiveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer, como um parceiro do whist. E então senti-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Porque não? Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade, as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a excepção; eu estava enfarado dellas; não sei até se me pungia algum remorso. Mal pensei naquillo, deixei-me ir atraz da imaginação; vi-me logo casado, ao pé de uma mulher adoravel, deante de um baby, que dormia no regaço da ama, todos nós no fundo do uma chacara sombria e verde, a espiarmos atravez das arvores uma nesga do ceu azul, extremamente azul…

CAPITULO CVII

Bilhete

«Não houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; está muito
serio e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para
nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me
tratou mal nem bem. Não sei o que vae acontecer; Deus queira
que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.»

CAPITULO CVIII

Que se não entende

Eis ahi o drama, eis ahi a ponta da orelha tragica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de analyse, que eu não farei neste capitulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicacia e o animo dessas poucas linhas traçadas á pressa; e por traz dellas a tempestade de outro cerebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, por que tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lagrymas?

Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tres ou quatro vezes, naquelle dia, accreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crel-o, é a realidade pura. Mas se vos disser a commoção que tive, duvidai um pouco da asserção, e não a acceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; emfim, era amor sem amor, isto é, sem delirio; e tudo isso dava uma combinação assás complexa e vaga, uma cousa que não podereis entender, como eu não entendi. Supponhamos que não disse nada.

CAPITULO CIX

O philosopho

Sabido que reli a carta, antes e depois do almoço, sabido fica que almocei, e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas da minha vida: um ovo, uma fatia de pão, uma chicara de chá. Não me esqueceu esta circumstancia minima; no meio de tanta cousa importante obliterada escapou esse almoço. A razão principal poderia ser justamente o meu desastre; mas não foi; a principal razão foi a reflexão que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquelle dia. Disse-me elle que a frugalidade não era necessaria para entender o Humanitismo, é menos ainda pratical-o; que esta philosophia acommodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o espectaculo e os amores; e que, ao contrario, a frugalidade podia indicar certa tendencia para o ascetismo, o qual era a expressão acabada da tolice humana.

–Veja S. João, continuou elle; mantinha-se de gafanhotos, no deserto, em vez de engordar tranquillamente na cidade, e fazer emmagrecer o pharisaismo na synagoga.

Deus me livre de contar a historia do Quincas Borba, que aliás ouvi toda naquella triste occasião, uma historia longa, complicada, mas interessante. E se não conto a historia, dispenso-me outrosim de descrever-lhe a figura, aliás mui diversa da que me appareceu no Passeio Publico. Calo-me; digo somente que se o principal característico do homem não são as feições, mas o vestuário, elle não era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general sem farda, um negociante sem deficit. Notei-lhe a perfeição da sobrecasaca, a alvura da camisa, o aceio das botas. A mesma voz, roufenha outr’ora, parecia restituida á primitiva sonoridade. Quanto á gesticulação, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, não tinha já a desordem, sujeitava-se a um certo methodo. Mas eu não quero descrevel-o. Se falasse, por exemplo, no botão de ouro que trazia ao peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descripção, que omitto por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de verniz. Saibam mais que elle herdára alguns pares de contos de réis de um velho tio de Barbacena.

Meu espirito, (permittam-me aqui uma comparação de criança!) meu espirito era n’aquella occasião uma especie de peteca. A narração do Quincas Borba dava-lhe uma palmada, elle subia; quando ia a cair, o bilhete de Virgilia dava-lhe outra palmada, e elle era de novo arremessado aos ares; descia, e o episodio do Passeio Publico recebia-o com outra palmada, egualmente rija e efficaz. Cuido que não nasci para situações complexas. Esse puxar e empuxar de cousas oppostas, desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo Neves e o bilhete de Virgilia na mesma philosophia, e mandal-os de presente a Aristoteles. E, comtudo, era instructiva a narração do nosso philosopho; admirava-lhe sobretudo o talento de observação com que descrevia a gestação e o crescimento do vicio, as luctas interiores, as capitulações vagarosas, o uso da lama.

–Olhe, observou elle; a primeira noite que passei, na escada de S. Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Porque? Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau, do quarto proprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez á rua…

Quiz expor-me finalmente a philosophia; eu pedi-lhe que não.–Estou assaz preocupado hoje e não poderia attendel-o; venha depois; estou sempre em casa. O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez soubesse da minha aventura, mas não accrescentou nada. Só me disse estas ultimas palavras á porta:

–Venha para o Humanitismo; elle é o grande regaço dos espiritos, o mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os gregos faziam-na sair de um poço. Que concepção mesquinha! Um poço! Mas é por isso mesmo que nunca atinaram com ella. Gregos, sub-gregos, anti-gregos, toda a longa serie dos homens tem-se debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade, que não está la. Gastaram cordas e caçambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu fui directamente ao mar. Venha para o Humanitismo.

CAPITULO CX

31

Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de provincia. Agarrei-me á esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém, a data de 31; e esta simples transposição de algarismos eliminou delles a substancia diabolica. Que profundas que são as molas da vida!

CAPITULO CXI

O muro

Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta pagina o caso do muro. Elles estavam prestes a embarcar. Entrando em casa de D. Placida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um bilhete de Virgilia; dizia que me esperava á noite, na chacara, sem falta. E concluía: «O muro é baixo do lado do becco.»

Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descommunalmente audaciosa, mal pensada e até ridicula. Não era só convidar o escandalo, era convidal-o de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro, embora baixo e do lado do becco; e, quando ia a galgal-o, via-me agarrado por um pedestre de policia, que me levava ao corpo da guarda. O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgilia não soube o que fez; era possivel que já estivesse arrependida. Olhei para o papel, um pedaço de papel amarrotado, mas inflexivel. Tive comichões de o rasgar, em trinta mil pedaços, e atiral-os ao vento, como o ultimo despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-proprio, o vexame da fuga, a idéa do medo… Não havia remedio senão ir.

–Diga-lhe que vou.

–Aonde? perguntou D. Placida.

–Onde ella disse que me espera.

–Não me disse nada.

–Neste papel.

D. Placida arregalou os olhos:–Mas esse papel, achei-o hoje de manhã, nesta sua gaveta, e pensei que…

Tive uma sensação exquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, na verdade, um antigo bilhete de Virgilia, recebido no começo dos nossos amores, uma certa entrevista na chacara, que me levou effectivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e… Tive uma sensação exquisita.

CAPITULO CXII

A opinião

Mas estava escripto que esse dia devia ser o dos lances dubios. Poucas horas depois, encontrava-me eu com o Lobo Neves, na rua do Ouvidor, e falavamos da presidencia e da politica. Elle aproveitou o primeiro conhecido que nos passou á ilharga, e deixou-me, depois de muitos comprimentos. Lembra-me que estava retraindo, mas de um retrahimento que forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão á critica, se este meu juizo fôr temerário!) pareceu-me que elle tinha medo–não medo de mim, nem de si, nem do codigo, nem da consciencia; tinha medo da opinião. Suppuz que esse tribunal anonymo e invisivel, em que cada membro accusa e julga, era o limite posto á vontade do Lobo Neves. Talvez que elle já não amasse a mulher; e, assim, póde ser que o coração fosse estranho á indulgencia dos seus ultimos actos. Cuido (e de novo insto pela boa vontade da critica!) cuido que elle estaria prompto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado de muitas relações pessoaes; mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquerito ácerca do caso, que colligiria uma a uma todas as circumstancias, antecedencias, inducções, provas, que as relataria na palestra das chacaras desoccupadas, essa terrivel opinião, tão curiosa das alcovas, obstou á dispersão da familia. Ao mesmo tempo tornou impossivel o desforço, que seria a divulgação. Elle não podia mostrar-se resentido commigo, sem egualmente buscar a separação conjugal; e teve então de simular a mesma ignorancia de outr’ora, e, por deducção, eguaes sentimentos.

Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinião se occupasse um pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer as ambições do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso, e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a doença, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue.

CAPITULO CXIII

A solda

A conclusão, se ha alguma no capitulo anterior, é que a opinião é uma bôa solda das instituições domesticas. Não é impossivel que eu desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem não é impossivel que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma bôa solda a opinião, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples producto da gente chocha ou mediocre; mas é evidente que, ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os effeitos salutares da opinião, para concluir que ella é a obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior numero.

CAPITULO CXIV

Fim de um dialogo

–Sim, é amanhã. Você vae a bordo?

–Está douda? É impossível.

–Então, adeus!

–Adeus!

–Não se esqueça de D. Placida. Vá vel-a algumas vezes. Coitada! Foi hontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria mais… É uma boa creatura, não?

–Certamente.

–Se tivermos de escrever, ella receberá as cartas. Agora até daqui a…

–Talvez dous annos?

–Qual! elle diz que é só até fazer as eleições.

–Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.

–Quem?

–Alli do sophá. Separemo-nos.

–Custa-me muito.

–Mas é preciso; adeus, Virgilia!

–Até breve. Adeus!

CAPITULO CXV

O almoço

Não a vi partir; mas á hora marcada senti alguma cousa que não era dor nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em eguaes doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lagrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biographico. A realidade pura é que eu almocei, como nos demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon…

…Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palacios do conde Molé e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de Janeiro com a polka… A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordações daquelle tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.

Eram, e naquella manhã parece que o diabo do homem adivinhára a nossa catastrophe. Jámais o engenho e a arte lhe foram tão propicios. Que requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de fórmas! Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta desse dia; do contrario, é mui provavel que a deixasse nestas paginas. Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os meus amores. Elles la iam, mar em fóra, no espaço e no tempo, e eu ficava-me alli n’uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos annos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais, porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde?

CAPITULO CXVI

Philosophia das folhas velhas

Fiquei tão triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de não escrever este, descançar um pouco, purgar o espirito da melancolia que o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo.

A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse intervallo; item, dous primos; e eu não me dei por abalado; levei-os ao cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão propria. Foi tambem per esse tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns, nasciam outros: eu continuava ás moscas.

Outras vezes agitava-me. Ia ás gavetas, entornava as cartas antigas, dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcella), e abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito… Leitor ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a philosophia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de tres bicos, botas de sete leguas e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica. Guarda as tuas cartas da juventude!

Ou, se te não apraz o chapéu de tres bicos, empregarei a locução de um velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as cartas da juventude, acharás occasião de «cantar uma saudade.» Parece que os nossos marujos dão este nome ás cantigas de terra, entoadas no alto mar. Como expressão poetica, é o que se póde exigir mais triste.

CAPITULO CXVII

O Humanitismo

Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia destinado a arruinar todos os demais systemas.

–Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas; a statica, anterior a toda a creação; a expansiva, começo das cousas; a dispersiva, apparecimento do homem; e contará mais uma, a contractiva, absorpção do homem e das cousas. A expansão, iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi a dispersão, que não é mais do que a multiplicação personificada da substancia original.

Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas, isto é, ser um forte, não era o mesmo que descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não nascer.

–Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo, comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n’uma só palavra: viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas; não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano, que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal, desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta (e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem que a inveja é uma virtude.

Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em destruil-as.

–Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe, um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.

Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposição é que constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe podem assignar alguns milhares de annos.

O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema, posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta, cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo. Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire.

CAPITULO CXVIII

A terceira força

A terceira força (Veja a primeira linha do capitulo passado) a terceira força que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir, e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão attrahia-me, o applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos objectos de seducção. Se a idéa do emplasto me tem apparecido nesse tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria celebre. Mas o emplasto não veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com alguma cousa e por alguma cousa. Tout notre mal vient de ne pouvoir être seuls. Esta maxima de la Bruyère sempre me pareceu um grande disparate. Não ha duvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.

CAPITULO CXIX

Parenthesis

(Haverá uma critica tão perversa que possa attribuir a minha opinião sobre la Bruyère á inveja das suas maximas? Eu aparo desde já esse golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prélo. Fil-as n’um periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornára a abrir; eram bocejos de enfado. E se não vejam:

Supporta-se com paciência a colica do proximo.

Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da
carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.

Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.

Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para
enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um
joalheiro.

Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das
nuvens, que de um terceiro andar.)

CAPITULO CXX

Compelle intrare

–Não, senhor, agora quer você queira, quer não, ha de casar, disse-me Sabina. Que bello futuro! Um solteirão sem filhos.

Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéa de ter filhos deu-me um sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas seriam tenues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não; impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliança do Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroço; declarou-me que Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou que eram mais alguns convivas que batiam á porta, etc. Compelle intrare, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar que o apologo evangelico não era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente interpretado pelos padres.

CAPITULO CXXI

Morro abaixo

No fim de tres mezes, ia tudo á maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moça, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimonio. A lembrança de Virgilia apparecia de quando em quando, á porta; e com ella um diabo negro, que me mettia á cara um espelho, no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo vinha, côr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de Nhã-loló, terna, luminosa, angelica.

Não falo dos annos. Eu não os sentia; acrescentarei até que os deitára fóra, certo domingo, em que fui á missa na capella do Livramento. Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes á missa. O morro estava ainda nú de habitações, salvo o velho palacete do alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nhã-loló pelo braço, não sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos, alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, estava com vinte annos apenas, tão lépidos como elles tinham sido.

Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno, basta-lhes ler este capitulo até o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae e eu. No meio do morro achámos um grupo de homens. O Damasceno, que vinha ao pé de nós, percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado; nós fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e côres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de cócaras, outros com as mãos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas debruçadas das pupillas.

–Que é? perguntou-me Nhã-loló.

Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos me foram cedendo espaço, sem que positivamente ninguem me visse. O centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous contendores, dous gallos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado. Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava desplumado e rubro; invadia-os o cançasso. Mas lutavam ainda assim, olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno não sabia mais de nada; o espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vão lhe disse que era tempo de descer: elle não respondia, não ouvia, concentrara-se no duello. A briga de gallos era uma de suas paixões.

Foi nessa occasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço, dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por alli abaixo. Já disse que o morro era então deshabitado; disse-lhes tambem que vinhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por modo que ajuntei uma pagina á philosophia do Quincas Borba: Humanitas osculou Humanitas… Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro abaixo.

Ao sopé detivemo-nos alguns minutos; á espera do Damasceno; elle veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho maço de notas de dez tostões, que os triumphadores recebiam duplamente alegres. Quanto aos gallos vinham sobraçados pelo respectivo dono. Um delles trazia a crista tão comida e ensanguentada, que vi logo nelle o vencido; mas era engano,–o vencido era o outro, que não trazia crista nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados. Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes commoções da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadissima.

CAPITULO CXXII

Uma intenção mui fina

O que vexava a Nhã-loló era o pae. A facilidade com que elle se mettêra com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades sociaes; e Nhã-loló chegára a temer que tal sogro me parecesse indigno. Era notavel a differença que ella fazia de si mesma; estudava-se e estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nhã-loló observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao esforço de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porém, a manifestação do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu busquei então divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanças e motes de bom tom; vãos esforços, que não a alegravam mais. Era tão profundo o abatimento, tão expressivo o desanimo, que eu cheguei a attribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar, no meu espirito, a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande elevação; era uma affinidade mais entre nós.

–Não ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este pantano.

CAPITULO CXXIII

O verdadeiro Cotrim

Não obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia da familia, entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que não tinha opinião em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se acaso louvasse, as raras prendas de Nhã-loló; por isso calava-se. Mais: estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão, mas se ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não era levado por nenhum odio; apreciava as minhas bôas qualidades,–não se fartava de as elogiar, como era de justiça; e pelo que respeita a Nhã-loló, não chegaria jámais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar o casamento ia um abysmo.

–Lavo inteiramente as mãos, concluiu elle.

–Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes…

–Isso é outro negocio. Acho que é indispensavel casar, principalmente tendo ambições politicas. Saiba que na politica o celibato é uma rémora. Agora, quanto á noiva, não posso ter voto, não quero, não devo, não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella não é tia carnal de Nhã-loló, como eu. Olhe… mas não… não digo…

–Diga.

–Não; não digo nada.

Talvez pareça excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem não souber que elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae. Reconheço que era um modelo. Arguiam-n’o de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o deficit. Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dôr que padeceu quando lhe morreu Sára, dalli a alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e não unica. Era thesoureiro de uma confraria, e irmão de varias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o beneficio não caíra no chão: a irmandade (de que elle fôra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. Não era perfeito, de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a noticia de um ou outro beneficio que praticava,–sestro reprehensivel ou não louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bôas acções eram contagiosas, quando publicas; razão a que se não pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que elle não praticava, de quando em quando, esses beneficios senão com o fim de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, força é confessar que a publicidade tornava-se uma condição sine qua non. Em summa, poderia dever algumas attenções, mas não devia um real a ninguem.

CAPIULO CXXIV

Vá de intermedio

Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu não compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, póde ser real e commum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão para escapar á vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a fórma é pittoresca. E repito: não é meu.

Vá de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Então, disse um:–O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra. Ao que eu redargui que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados. Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala, o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa, inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia que levou o primeiro a não coçar o nariz, o segundo a não consultar o relogio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito, e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando, saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas justas. Mas vamos ao epitaphio.

CAPITULO CXXV

Epitaphio

                  AQUI JAZ

        D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO

                   MORTA

         AOS DEZENOVE ANNOS DE IDADE

               ORAI POR ELLA!

CAPITULO CXXVI

Desconsolação

O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de Nhã-loló, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo que morreu; accrescentarei que foi por occasião da primeira entrada da febre amarella. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que talvez não a amasse devéras.

Vejam agora a que excessos póde levar uma inadvertencia; doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando á direita e á esquerda, levou tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e não cheguei a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes. O Quincas Borba, porém, explicou-me que as epidemias eram uteis á especie, embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos; e fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado ás garras da peste; mas esta pergunta era tão insensata, que ficou sem resposta.

Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do setimo dia. A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e dizia que a dor grande com que Deus o castigára fora ainda augmentada com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada. Tres semanas depois tornou ao assumpto, e então confessou-me que, no no meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolação da presença dos amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam á cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão geraes que bem se podia desculpar essa desattenção apparente. O Damasceno abanava a cabeça de um modo incrédulo e triste.

–Qual! gemia elle, desampararam-me.

O Cotrim, que estava presente:

–Vieram os que devéras se interessam por você é por nós. Os oitenta viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacéas dos boticarios, do preço das casas, ou uns dos outros…

O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou:

–Mas viessem!

CAPITULO CXXVII

Formalidade

Grande cousa é haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distincção psychica; eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulchro.

De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno, não se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla,–modernas,–em trajos de rua, com a cara tapada, não tapada á outra maneira, com um espesso panno que as cobrisse devéras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei graça a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o rosto,–e cumpre o uso,–mas não o esconde,–e divulga a belleza. Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se tu és um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues isso), comprehenderás que, tanto n’um como n’outro caso, surge ahi a orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social…

Amavel Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o balsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta; e se a dôr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, senão a ti, deverão esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na cabeça não diz nada á alma; mas a indifferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrario de uma velha formula absurda, não é a lettra que mata; a lettra dá vida; o espirito é que é objecto de controversia, de duvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para socego do Damasceno e gloria de Muhammed.

CAPITULO CXXVIII

Na camara

E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commissão de orçamento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro é escusado encarecer a minha satisfação, e para os outros é igualmente inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos á mesma praia, como duas botelhas de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu remorso; e emprégo esta fórma suspensiva, dubitativa ou condicional, para o fim de dizer que effectivamente não continha nada, a não ser a ambição de ser ministro.

CAPITULO CXXIX

Sem remorsos

Não tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e concludente, por que razão Achilles passea á roda de Troya o cadaver do adversario, e lady Macbeth passea á volta da sala a sua mancha de sangue. Mas eu não tenho apparelhos chimicos, como não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este capitulo, direi que não quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita reputação militar e litteraria. Eu não ouvia as supplicas de Priamo, mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.

CAPITULO CXXX

Para intercalar no cap. CXXIX

A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi n’um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa, de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas, e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra profundamente retrospectiva:

–Magnifica!

Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do cap. CXXIX.

CAPITULO CXXXI

De uma calumnia

Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,–o que era simples opinião e não remorso,–senti que alguem me punha a mão no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha, jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e disse-me:

–Seu maganão! Recordações do passado, hein?

–Viva o passado!

–Você naturalmente foi reintegrado no emprego.

–Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo.

Confesso que este dialogo era uma indiscrição,–principalmente a ultima replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico, etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres, e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,–falo do homem de uma sociedade culta e elegante,–o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos), a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro sentimento menos rispido e menos secreto,–essa meiga fatuidade, que é a transpiração luminosa do merito.

Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.»

CAPITULO CXXXII

Que não é serio

Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo, quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: «Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:–«quem lhe levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é serio.

CAPITULO CXXXIII

O principio de Helvetius

Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de Helvetius,–ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar; confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito. Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle interesse de segurança, havia outro, o do desvanecimento, que é mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto, o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro no meu caso;–a diferença é que não era o interesse apparente, mas o recondito.

CAPITULO CXXXIV

Cincoenta annos

Não lhes disse ainda,–mas digo-o agora,–que quando Virgilia descia a escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,–ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de sustos,–capeada de dissimulação e duplicidade,–mas emfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes dizer nas poucas paginas deste livro.

Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião, cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro? Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos de frio, nem rheumaticos,–mas cochillando a sua fadiga, um pouco cobiçosos de cama e de repouso. Então,–e vejam até que ponto póde ir a imaginação de um homem, com somno,–então pareceu-me ouvir de um morcego encarapitado no tejadilho:–Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,–emfim, nos outros.

CAPITULO CXXXV

Oblivion

E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez, mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.»

Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. Tempora mutantur. E ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.

CAPITULO CXXXVI

Inutilidade

Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inútil.

CAPITULO CXXXVII

A barretina

E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia.

–Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho! é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo, Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de aproveital-a.

Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo. Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.

Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas, que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus, decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina, por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é arvore do deserto, das praças e dos jardins.

Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara, que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança. Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso, eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.

O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal; sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois, tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força, com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu perigo.

CAPITULO CXXXVIII

A um Critico

Meu caro critico,

Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos,
accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão
lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase
incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu
chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O
que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que
quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer,
sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento
a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar
tudo.

CAPITULO CXXXIX

De como não fui ministro de estado

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

CAPITULO CXL

Que explica o anterior

Ha cousas que melhor se dizem calando; tal é a materia do capitulo anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixão do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o desespero, a dôr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira politica. E notem que o Quincas Borba, por inducções philosophicas que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião delle, este sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, porque orça pelo amor que as mulheres tem ás rendas e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os queima a paixão do poder, lá chegam á fina força, ou pela escada da direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este, não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado; e dahi a maior afflicção, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo…

–Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de philosophias que me não levam a cousa nenhuma.

A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho philosopho, equivalia a um desacato; mas elle proprio desculpou a irritação com que lhe falei. Trouxeram-nos café; era uma hora da tarde, estavamos na minha sala de estudo, uma bella sala, que dava para o fundo da chacara, bons livros, objectos d’arte, um Voltaire entre elles, um Voltaire de bronze, que nessa occasião parecia accentuar o risinho de sarcasmo, com que me olhava, o ladrão; cadeiras excellentes; fóra, o sol, um grande sol, que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos ministros da natureza; corria um vento fresco, o ceu estava nitidamente azul. De cada janella,–eram trez–pendia uma gaiola com passaros, que chilreavam as suas operas rusticas. Tudo tinha a apparencia de uma conspiração das cousas contra o homem: e, comquanto eu estivesse na minha sala, olhando para a minha chacara, sentado na minha cadeira, ouvindo os meus passaros, ao pé dos meus livros, allumiado pelo meu sol, não chegava a curar-me das saudades daquella outra cadeira, que não era minha.

CAPITULO CXLI

Os cães

–Mas, emfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borbas, indo pôr a chicara vazia no parapeito de uma das janellas.

Não sei; vou metter-me na Tijuca; fugir aos homens. Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada.

–Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.

Para distrair-me, convidou-me a sair; saimos para os lados do Engenho Velho. Iamos a pé, philosophando as cousas. Nunca me hade esquecer o beneficio desse passeio, que me restituiu o socego e a força. A palavra daquelle grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me elle que eu não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim que a lingua philosophica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no calão do povo. Funda um jornal, disse-me elle, e «desmancha toda esta egrejinha.»

–Magnifica idéa! Vou fundar um jornal, vou escachal-os, vou…

–Lutar. Pódes escachal-os ou não; o essencial é que lutes. Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.

Dahi a pouco demos com uma briga de cães; facto que aos olhos de um homem vulgar não teria valor. O Quincas Borba fez-me parar e observar os cães. Eram dous. Notou que ao pé delles estava um osso, motivo da guerra, e não deixou de chamar a minha attenção para a circumstancia de que o osso não tinha carne. Um simples osso nú. Os cães mordiam-se, rosnavam, com o furor nos olhos… O Quincas Borba metteu a bengala debaixo do braço, encostou o queixo no castão, e parecia em extasis.

–Que bello que isto é! dizia elle de quando em quando.

Quiz arrancar-me dalli, mas não pude; elle estava arraigado ao chão, e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte. Notei que ficára sinceramente alegre, posto contivesse a alegria, segundo convinha a um grande philosopho. Fez-me observar a belleza do espectaculo, relembrou o objecto da luta, concluiu que os cães tinham fome; mas a privação do alimento era nada para os effeitos geraes da philosophia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espectaculo é mais grandioso: as creaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos appeteciveis; luta que se complica muito, porque entra em acção a intelligencia do homem, com todo o accumulo de sagacidade que lhe deram os seculos, etc.

CAPITULO CXLII

O pedido secreto

Quanta cousa n’um minuete! como dizia o outro. Quanta cousa n’uma briga de cães! Mas eu não era um discipulo servil ou medroso, que deixasse de fazer uma ou outra objecção adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma duvida; não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães. Elle respondeu-me com excepcional brandura:

–Disputai-a aos outros homens é mais logico, porque a condição dos contendores é a mesma, e leva o osso o que fôr mais forte. Mas porque não será um espectaculo grandioso disputal-o aos cães? Voluntariamente, comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa peor, como Ezequiel; logo, o ruim é comivel; resta saber se é mais digno do homem disputal-o, por virtude de uma necessidade natural, ou preferil-o, para obedecer a uma exaltação religiosa, isto é, modificavel, ao passo que a fome é eterna, como a vida e como a morte.

Estavamos á porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma senhora. Entramos; e o Quincas Borba, com a discrição propria de um philosopho, foi ler a lombada dos livros de uma estante, emquanto eu lia a carta, que era de Virgilia:

«Meu bom amigo,

«D. Placida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma
cousa por ella; mora no becco das Escadinhas; veja se alcança
metei-a na Misericórdia.

Sua amiga sincera,

[signature]

Não era a letra fina e correcta de Virgilia, mas grossa e desegual; o V da assignatura não passava de um rabisco sem intenção alphabetica; de maneira que, se a carta apparecesse, era mui difficil attribuir-lhe a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Placida! Mas eu tinha-lhe deixado os cinco contos da praia da Gambôa, enão podia comprehender que…

–Vaes comprehender, disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante.

–O que? perguntei espantado.

–Vaes comprehender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus avós espirituaes; e, çomquanto a minha philosophia valha mais que a delle, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz elle nesta pagina?–E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o logar com o dedo.–Que diz elle? Diz que o homem tem «uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente.» Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que torna grandiosa a luta, como eu dizia. «Sabe que morre» é uma expressão profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe que tem fome. Porquanto, o facto da morte limita, por assim dizer, o entendimento humano; a consciencia da extincção dura um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vae nisso alguma immodestia), que a fórmula de Pascal é inferior á minha, sem todavia deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.

CAPITULO CXLIII

Não vou

Emquanto elle restituia o livro á estante, relia eu o bilhete. Ao jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engulir, fitava o canto da sala, a ponta da meza, um prato, uma cadeira, uma mosca invisivel, disse-me elle:–Tens alguma cousa; aposto que foi aquella carta?–Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incommodado, com o pedido de Virgilia. Tinha dado a D. Placida cinco contos de réis; duvido muito que ninguem fosse mais generoso do que eu, nem tanto. Cinco contos! E que fizera delles? Naturalmente botou-os fóra, comeu-os em grandes festas, e agora toca para a Misericordia, e eu que a leve! Morre-se em qualquer parte. Accresce que eu não sabia, ou não me lembrava do tal becco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de lá ir, chamar a attenção dos visinhos, bater á porta, etc. Que massada! Não vou.

CAPITULO CXLIV

Utilidade relativa

Mas a noite, que é boa conselheira, ponderou que a cortezia mandava obedecer aos desejos da minha antiga dama.

–Letras vencidas, urge pagal-as, disse eu ao levantar-me.

Depois do almoço fui á casa de D. Placida; achei um mólho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fil-a transportar para a Misericordia, onde ella morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida ás escondidas, tal qual entrára. Outra vez perguntei, a mim mesmo, como no cap. LXXV, se era para isto que o sachristão da Sé e a doceira trouxeram D. Placida á luz, n’um momento de sympathia especifica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Placida, talvez os meus amores com Virgilia tivessem sido interrompidos, ou immediatamente quebrados, em plena effervescencia; tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Placida. Utilidade relativa, convenho; mas que diacho ha absoluto nesse mundo?

CAPITULO CXLV

Simples repetição

Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um canteiro da visinhança fingiu-se enamorado de D. Placida, logrou espertar-lhe os sentidos, ou a vaidade, e casou com ella; no fim de alguns mezes inventou um negocio, vendeu as apolices e fugiu com o dinheiro. Não vale a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de um capitulo.

CAPITULO CXLVI

O programma

Urgia fundar o jornal. Redigi o programma, que era uma applicação politica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba não houvesse ainda publicado o livro, (que aperfeiçoava de anno em anno) assentamos de lhe não fazer nenhuma referencia. O Quincas Borba exigiu apenas uma declaração, autographa e reservada, de que alguns principios novos applicados á politica eram tirados do livro delle, ainda inedito.

Era a fina flôr dos programmas; promettia curar a sociedade, destruir os abusos, defender os sãos principios de liberdade e conservação; fazia um appello ao commercio e á lavoura; citava Guizot e Ledru-Rollin e acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha e local: «A nova doutrina que professamos ha de inevitavelmente derribar o actual ministerio.» Confesso que, nas circumstancias politicas da occasião, o programma pareceu-me uma obra-prima. A ameaça do fim, que o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do mais puro Humanitismo, e elle mesmo o confessou depois. Porquanto, o Humanitismo não excluia nada; as guerras de Napoleão e uma contenda de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a differença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, cousa que apparentemente não acontece ás cabras. Ora, eu não fazia mais do que applicar ás circumstancias a nossa fórmula philosophica: Humanitas queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas.

–Tu és o meu discipulo amado, o meu califa, bradou o Quincas Borba, com uma nota de ternura, que até então lhe não ouvira. Posso dizer como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua, não recuarei das minhas idéas. Crê, meu caro Braz Cubas, que esta é a verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos seculos.

CAPITULO CXLVII

O desatino

Mandei logo para a imprensa uma noticia discreta, dizendo que provavelmente começaria a publicação de um jornal opposicionista, dahi a algumas semanas, redigido pelo Dr. Braz Cubas. O Quincas Borba, a quem li a noticia, pegou da penna, e acrescentou ao meu nome, com uma fraternidade verdadeiramente humanistica, esta phrase: «um dos mais gloriosos membros da passada camara.»

No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado, mas dissimulava, affectando socego e até alegria. Vira a noticia do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me de semelhante idéa. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia collocar-me n’uma situação difficil, e de certa maneira trancar as portas do parlamento. O ministerio, não só lhe parecia excellente, o que aliás podia não ser a minha opinião, mas com certeza viveria muito; e que podia eu ganhar com indispol-o contra mim? Sabia que alguns dos ministros me eram affeiçoados; não era impossivel uma vaga, e… Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditára muito o passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propôr-lhe a leitura do programma, mas elle recusou energicamente, dizendo que não queria ter a minima parte no meu desatino.

–É um verdadeiro desatino, repetiu elle; pense ainda alguns dias, e verá que é* um desatino.

A mesma cousa disse Sabina, á noite, no theatro. Deixou a filha no camarote, como Cotrim, e trouxe-me ao corredor.

–Mano Braz, que é que você vae fazer? perguntou-me afflicta. Que idéa é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia….

Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento; que a minha idéa era derrubar o ministerio, por não me parecer adequado á situação–e a certa fórmula philosophica; afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortez, embora energica. A violencia não era especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos, abanou a cabeça, e tornou ao assumpto com um ar de supplica e ameaça, alternadamente; eu disse-lhe que não, que não, e que não. Desenganada, lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos della e do marido.–Pois siga o que, lhe parecer, concluiu; nós cumprimos a nossa obrigação. Deu-me as costas e voltou ao camarote.

CAPITULO CXLVIII

O problema insoluvel

Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, apparecia em outros uma declaração do Cotrim, dizendo, era substancia, que «posto não militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a patria, achava conveniente deixar bem claro que não tinha influencia nem parte directa ou indirecta na folha de seu cunhado, o Dr. Braz Cubas, cujas idéas e procedimento politico inteiramente reprovava. O actual ministerio (como aliás qualquer outro composto de eguaes capacidades) parecia-lhe destinado a promover a felicidade publica.»

Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas vezes, e reli a declaração inopportuna, insolita e enigmatica. Se elle nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente tão vulgar como a publicação de uma folha? Nem todos os cidadãos que acham bom ou mau um ministerio fazem declarações taes pela imprensa, nem são obrigados a fazel-as. Realmente, era um mysterio a intrusão do Cotrim neste negocio, não menos que a sua aggressão pessoal. Nossas relações até então tinham sido lhanas e benevolas; não me lembrava nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliação. Ao contrario, as recordações eram de verdadeiros obsequios; assim, por exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o arsenal de marinha, fornecimentos que elle continuava a fazer com a maior pontualidade, e dos quaes me dizia algumas semanas antes, que no fim de mais trez annos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois a lembrança de tamanho obsequio não teve força para obstar que elle viesse a publico enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso o motivo da declaração, que o fazia commetter ao mesmo tempo um destempero e uma ingratidão; confesso que era um problema insoluvel…

CAPITULO CXLIX

Theoria do beneficio

… Tão insoluvel que o Quincas Borba não pôde dar com elle, apezar de estudal-o longamente e com boa vontade.–Ora adeus! concluiu; nem todos os problemas valem cinco minutos de attenção.

Quanto á censura de ingratidão, o Quincas Borba rejeitou-a inteiramente, não como improvavel, mas como absurda, por não obedecer ás conclusões de uma boa philosophia humanistica:

–Não me pódes negar um facto, disse elle; é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o beneficio? é um acto que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido o effeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indifferente. Suppõe que tens apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incommodo, desabotôas o cós, respiras, saboreas um instante de gozo, o organismo torna á indifferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. Não havendo nada que perdure, é natural que a memoria se esvaeça, porque ella não é uma planta aerea, precisa de chão. A esperança de outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro; mas este facto, aliás um dos mais sublimes que a philosophia póde achar em seu caminho, explica-se pela memoria da privação, ou, usando de outra fórmula, pela privação continuada na memoria, que repercute a dor passada e aconselha a precaução do remedio opportuno. Não digo que, ainda sem esta circumstancia, não aconteça, algumas vezes, persistir a memoria do obsequio, acompanhada de certa affeição mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor aos olhos de um philosopho.

–Mas, repliquei eu, se nenhuma razão ha para que perdure a memoria do obsequio no obsequiado, menos ha de haver em relação ao obsequiador. Quizera que me explicasses este ponto.

–Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persistencia do beneficio na memoria de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do beneficio e seus effeitos. Primeiramente, ha o sentimento de uma boa acção, e deductivamente a consciencia de que somos capazes de boas acções; em segundo logar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra creatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das cousas mais legitimamente agradaveis, segundo as melhores opiniões, ao organismo humano. Erasmo, que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas cousas boas, chamou a attenção para a complacencia com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo; mas direi o que elle não disse, a saber, que se um dos burros coçar melhor o outro, esse ha de ter nos olhos algum indicio especial de satisfação. Porque é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A consciencia é a mesma cousa; remira-se a miudo, quando se acha bella. Nem o remorso é outra cousa mais do que o trejeito de uma consciencia que se vê hedionda. Não esqueças que, sendo tudo uma simples irradiação de Humanitas, o beneficio e seus effeitos, são phenomenos perfeitamente admiráveis.

CAPITULO CL

Rotação e translação

Ha em cada empreza, affeição ou edade um cyclo inteiro da vida humana. O primeiro numero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis mezes depois batia a hora da velhice, e dahi a duas semanas a da morte, que foi clandestina, como a de D. Placida. No dia em que o jornal amanheceu morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos ephemeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio não dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa figura menos nitida e adequada, prefiro uma imagem astronomica: o homem executa á roda do grande mysterio um movimento duplo de rotação e translação; tem os seus dias, deseguaes como os de Jupiter, e delles compõe o seu anno mais ou menos longo.

No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluia o Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada ministerial. Correu ao menos, durante algumas semanas, que elle ia ser ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não é impossivel que a noticia da morte me deixasse alguma tranquillidade, allivio, e um ou dous minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade; juro aos seculos que é a pura verdade.

Fui ao enterro. Na sala mortuaria achei Virgilia, ao pé do feretro, a soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o enterro, abraçou-se ao caixão, afflicta; vieram tiral-a e leval-a para dentro. Digo-vos que as lagrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemiterio; e, para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra na garganta ou na consciencia. No cemiterio, principalmente quando deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova, o baque surdo da cal deu-me um estremecimento passageiro, é certo, mas desagradavel; e depois a tarde tinha o peso e a côr do chumbo; o cemiterio, as roupas pretas…

CAPITULO CLI

Philosophia dos epitaphios

Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitaphios. E, aliás, gosto dos epitaphios; elles são, entre a gente civilisada, uma expressão daquelle pio e secreto egoismo que induz o homem a arrancar á morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Dahi vem, talvez, a tristeza inconsolavel dos que levam os seus mortos á valla commum; parece-lhes que a podridão anonyma os alcança a elles mesmos.

CAPITULO CLII

A moeda do Vespasiano

Tinham ido todos; só o meu carro esperava pelo dono. Accendi um charuto; afastei-me do cemiterio. Não podia sacudir dos olhos a ceremonia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgilia. Os soluços, principalmente, tinham o som vago e mysterioso de um problema. Virgilia trahira o marido, com sinceridade; e agora chorava-o com sinceridade. Eis uma combinação difficil que não pude fazer em todo o trajecto; em casa, porém, apeando-me do carro, suspeitei que a combinação era possivel, e até facil. Meiga Natura! A taxa da dor é como a moeda de Vespasiano; não cheira á origem, e tanto se colhe do mal como do bem. A moral reprehenderá, porventura, a minha complice; é o que te não importa, implacavel amiga, uma vez que lhe recebeste pontualmente as lagrimas. Meiga, tres vezes meiga Natura!

CAPÍTULO CLIII

O alienista

Começo a ficar pathetico; e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era nababo, e acordei com a idéa de ser nababo. Eu gostava, ás vezes, de imaginar esses contrastes de região, estado e credo. Alguns dias antes tinha pensado na hypothese de uma revolução social, religiosa e politica, que transferisse o arcebispo de Cantuaria a simples collector de Petropolis, e fiz longos calculos para saber se o collector eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o collector, ou que porção de arcebispo póde jazer n’um collector, ou que somma de collector póde combinar com um arcebispo, etc. Questões insoluveis, apparentemente, mas na realidade perfeitamente soluveis, desde que se attenda que póde haver n’um arcebispo dous arcebispos,–o da bulla e o outro. Está dito, vou ser nababo.

Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que olhou para mim com certa cautella e pena, levando a sua bondade a communicar-me que eu estava doudo. Ri-me a principio; mas a nobre convicção do philosopho incutiu-me certo medo. A unica objecção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doudo, mas não tendo geralmente os doudos outro conceito de si mesmos, tal objecção ficava sem valor. E vêde se ha algum fundamento na crença popular de que os philosophos são homens alheios ás cousas minimas. No dia seguinte mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado. Elle porém houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me não achava doudo.

–Não, disse elle sorrindo; raros homens terão tanto juizo como o senhor.

–Então o Quincas Borba enganou-se?

–Redondamente. E depois:–Ao contrario, se é amigo delle… peço-lhe que o distraia… que…

–Justos ceus! Parece-lhe?… Um homem de tamanho espirito! um philosopho!

Não importa; a loucura entra em todas as casas. Imaginem a minha afflicção. O alienista, vendo o effeito de suas palavras, reconheceu que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da advertencia. Observou que podia não ser nada, e accrescentou até que um grãosinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo pico á vida. Como eu rejeitasse com horror esta opinião, o alienista sorriu e disse-me uma cousa tão extraordinaria, tão extraordinaria, que não merece menos de um capitulo.

CAPITULO CLIV

Os navios do Pireu

–Ha de lembrar-se, disse-me o alienista, daquelle famoso maniaco atheniense, que suppunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não tivesse, para dormir, a cuba de Diogenes; mas a posse imaginaria dos navios valia por todas as drachmas da Hellade. Ora bem, ha em todos nós um maniaco de Athenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez, mentalmente, dous ou tres patachos, pelo menos, póde crer que jura falso.

–Tambem o senhor? perguntei-lhe.

–Tambem eu.

–Tambem eu?

–Tambem o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado esse homem que alli está sacudindo os tapetes á janella.

De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto nós falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que elle escancarára as janellas todas, desde longo tempo, que alçára as cortinas, que devassára o mais possivel a sala, ricamente alfaiada, para que a vissem de fóra, e concluiu:–Este seu criado tem a mania do atheniense: crê que os navios são delle; uma hora de illusão que lhe dá a maior felicidade da terra.

CAPITULO CLV

Reflexão cordial

–Se o alienista tem razão, disse eu commigo, não haverá muito que lastimar o Quincas Borba; e uma questão de mais ou de menos. Comtudo, é justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de outras paragens.

CAPITULO CLVI

Orgulho tem servilidade

O Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu criado.–Póde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado a mania de atheniense; mas imagens não são idéas nem observações tomadas á natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade. A intenção delle é mostrar que não é criado de qualquer.–Depois chamou a minha attenção para os cocheiros de casa grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja solicitude obedece ás variações sociaes da freguezia, etc. E concluiu que era tudo a expressão daquelle sentimento delicado e nobre,–prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime.

CAPITULO CLVII

Phase brilhante

–Sublime és tu, bradei eu, lançando-lhe os braços ao pescoço.

Com effeito, era impossível crer que um homem tão profundo pudesse chegar á demencia; e foi o que lhe disse após o meu abraço, denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a impressão que lhe fez a denuncia; lembra-me que elle estremeceu e ficou muito pallido.

Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliação opportuna, porque a solidão pesava-me, como um remorso, e a vida era para mim a peor das fadigas, que é a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui convidado por elle a filiar-me n’uma Ordem Terceira; o que eu não fiz sem consultar o Quincas Borba:

–Vae se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de annexar á minha philosophia uma parte dogmatica e liturgica. O Humanitismo ha de ser tambem uma religião, a do futuro, a unica verdadeira. O christianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. O paraiso christão é um digno emulo do paraiso mussulmano; e quanto ao nirvana de Buddha não passa de uma concepção de paralyticos. Verás o que é a religião humanistica. A absorpção final, a phase contractiva, é a reconstituição da substancia, não o seu anniquilamento, etc. Vae aonde te chamam; não esqueças, porém, que és o meu califa.

E vede agora a minha, modestia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, exerci alli alguns cargos, foi essa a phase mais brilhante da minha vida. Não obstante, calo-me, não digo nada, não conto os meus serviços, o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi, nada, não digo absolutamente nada.

Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, si eu mostrasse como todo e qualquer premio estranho vale pouco ao lado do premio subjectivo e immediato; mas seria romper o silencio que jurei guardar neste ponto. Demais, os phenomenos da consciencia são de difficil analyse; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que a elle se prendessem, e acabava fazendo um capitulo de psychologia. Affirmo sómente que foi a phase mais brilhante da minha vida. Os quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraça, que é tão aborrecida como a do gozo, e talvez peor. Mas a alegria que se dá á alma dos doentes e dos pobres, é recompensa de algum valor; e não me digam que é negativa, por só recebel-a o obsequiado. Não; eu recebia-a de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava excellente idéa de mim mesmo.

CAPITULO CLVIII

Dous encontros

No fim de alguns annos, tres ou quatro, estava enfarado do officio, e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capitulo sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?… a linda Marcella; e vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir esmolas, achei… Agora é que não são capazes de adivinhar… achei a flôr da moita, Eugenia, a filha de D. Eusebia e do Villaça, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste.

Esta, ao reconhecer-me, ficou pallida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Comprehendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria á esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se no cubiculo. Nunca mais a vi; não soube nada da vida della, nem se a mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miseria. Sei que continuava coxa e triste. Foi com esta impressão profunda que cheguei ao hospital, onde Marcella entrara na vespera, e onde a vi expirar meia hora depois, feia, magra, decrepita…

CAPITULO CLIX

A semi-demencia

Comprehendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o Quincas Borba partira seis mezes antes para Minas Geraes, e levou comsigo a melhor das philosophias. Voltou quatro mezes depois, e entrou-me em casa, certa manhã, quasi no estado em que eu o vira no Passeio Publico. A differença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimára o manuscripto todo e ia recomeçal-o. A parte dogmatica ficava completa, embora não escripta; era a verdadeira religião do futuro.

–Juras por Humanitas? perguntou-me.

–Sabes que sim.

A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda a cruel verdade. O Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de consciencia, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabia-o, e não se irritava contra o mal; ao contrario, dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava comsigo mesmo. Recitava-me longos capitulos do livro, e antiphonas, e litanias espirituaes; chegou até a reproduzir uma dansa sacra que inventara para as ceremonias do Humanitismo. A graça lugubre com que elle levantava e sacudia as pernas era singularmente fantastica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente da razão, triste como uma lagrima…

Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma illusão, e que Pangloss, o calumniado Pangloss, não era tão tolo como o suppoz Voltaire.

CAPITULO CLX

Das negativas

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os successos narrados na primeira parte do livro. O principal delles foi a invenção do emplasto Braz Cubas, que morreu commigo, por causa da molestia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os homens, acima da sciencia e da riqueza, porque eras a genuina e directa inspiração do ceu. O acaso determinou o contrario; e ahi vos ficaes eternamente hypocondriacos.

Este ultimo capitulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a morte de D. Placida, nem a semi-demencia do Quincas Borba. Sommadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mysterio, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capitulo de negativas:–Não tive filhos, não transmitti a nenhuma creatura o legado da nossa miseria.

FIM

ÍNDICE

Ao leitor v

Dedicatória vii

Capitulo

         I    Obito do auto
        II    O emplasto
       III    Genealogia
        IV    A idéa fixa
         V    Em que apparece a orelha de uma senhora
        VI    Chimène, qui l'eut dit? Rodrigue, qui l'eut cru?
       VII    O delirio
      VIII    Razão contra Sandice
        IX    Transição
         X    Naquelle dia
        XI    O menino é pae do homem
       XII    Um episodio de 1814
      XIII    Um salto
       XIV    O primeiro beijo
        XV    Marcella
       XVI    Uma reflexão immoral
      XVII    Do trapezio o outras cousas
     XVIII    Visão do corredor
       XIX    A bordo
        XX    Bacharelo-me
       XXI    O almocreve
      XXII    Volta ao Rio
     XXIII    Triste, mas curto
      XXIV    Curto, era alegre
       XXV    Na Tijuca
      XXVI    O autor hesita
     XXVII    Virgilia?
    XXVIII    Contanto que
      XXIX    A visita
       XXX    A flor da moita
      XXXI    A borboleta preta
     XXXII    Côxa de nascença
    XXXIII    Bem aventurados os que não descem
     XXXIV    A uma alma sensivel
      XXXV    O caminho de Damasco
     XXXVI    A proposito de botas
    XXXVII    Emfim!
   XXXVIII    A quarta edição
     XXXIX    O visinho
        XL    Na sege
       XLI    A allucinação
      XLII    Que escapou a Aristoteles
     XLIII    Marqueza, porque eu serei marquez
      XLIV    Um Cubas!
       XLV    Notas
      XLVI    A herança
     XLVII    O recluso
    XLVIII    Um primo de Virgilia
      XLIX    A ponta do nariz
         L    Virgilia casada
        LI    É minha!
       LII    O embrulho mysterioso
      LIII    . . . . . .
       LIV    A pendula
        LV    O velho dialogo de Adão e Eva
       LVI    O momento opportuno
      LVII    Destino
     LVIII    Confidencia
       LIX    Um encontro
        LX    O abraço
       LXI    Um projecto
      LXII    O travesseiro
     LXIII    Fujamos!
      LXIV    A transacção
       LXV    Olheiros e escutas
      LXVI    As pernas
     LXVII    A casinha
    LXVIII    O vergalho
      LXIX    Um grão de sandice
       LXX    D. Placida
      LXXI    O senão do livro
     LXXII    O bibliomano
    LXXIII    O _lunch_
     LXXIV    Historia de D. Placida
      LXXV    Commigo
     LXXVI    O estrume
    LXXVII    Entrevista
   LXXVIII    A presidencia
     LXXIX    Compromisso de gato
      LXXX    De secretario
     LXXXI    A reconciliação
    LXXXII    Questão de botanica
   LXXXIII    13
    LXXXIV    O conflicto
     LXXXV    O cimo da montanha
    LXXXVI    O mysterio
   LXXXVII    Geologia
  LXXXVIII    O enfermo
    LXXXIX    _In extremis_
        XC    O velho colloquio do Adão e Caim
       XCI    Uma carta extraordinaria
      XCII    Um homem extraordinario
     XCIII    O jantar
      XCIV    A causa secreta
       XCV    Flores de antanho
      XCVI    A carta anonyma
     XCVII    Entre a boca e a testa
    XCVIII    Supprimido
      XCIX    Na plateia
         C    O caso provavel
        CI    A revolução dalmata
       CII    De repouso
      CIII    Distracção
       CIV    Era elle!
        CV    Equivalencia das janellas
       CVI    Jogo perigoso
      CVII    Bilhete
     CVIII    Que se não entende
       CIX    O philosopho
        CX    31
       CXI    O muro
      CXII    A opinião
     CXIII    A solda
      CXIV    Fim do um dialogo
       CXV    O almoço
      CXVI    Philosophia das folhas velhas
     CXVII    O Humanitismo
    CXVIII    A terceira força
      CXIX    Parenthesis
       CXX    _Compelle intrare_
      CXXI    Morro abaixo
     CXXII    Uma intenção mui fina
    CXXIII    O verdadeiro Cotrim
     CXXIV    Vá de intermedio
      CXXV    Epitaphio
     CXXVI    Desconsolação
    CXXVII    Formalidade
   CXXVIII    Na camara
     CXXIX    Sem remorsos
      CXXX    Por intercallar no cap. CXXIX
     CXXXI    De uma calumnia
    CXXXII    Que não é serio
   CXXXIII    O principio de Helvetius
    CXXXIV    Cincoenta annos
     CXXXV    _Oblivion_
    CXXXVI    Inutilidade
   CXXXVII    A barretina
  CXXXVIII    A um critico
    CXXXIX    De como não fui ministro d'Estado
       CXL    Que explica o anterior
      CXLI    Os cães
     CXLII    O pedido secreto
    CXLIII    Não vou
     CXLIV    Utilidade relativa
      CXLV    Simples repetição
     CXLVI    O programma
    CXLVII    O desatino
   CXLVIII    O problema insoluvel
     CXLIX    Theoria do beneficio
        CL    Rotação e translação
       CLI    Philosophia dos epitaphios
      CLII    A moeda de Vespasiano
     CLIII    O alienista
      CLIV    Os navios do Pireu
       CLV    Reflexão cordial
      CLVI    Orgulho da servilidade
     CLVII    Phase brilhante
    CLVIII    Dous encontros
      CLIX    A semi-demencia
       CLX    Das negativas

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START: FULL LICENSE

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To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free distribution of electronic works, by using or distributing this work (or any other work associated in any way with the phrase “Project Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full Project Gutenberg-tm License available with this file or online at www.gutenberg.org/license.

Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm electronic works

1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to and accept all the terms of this license and intellectual property (trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be used on or associated in any way with an electronic work by people who agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works even without complying with the full terms of this agreement. See paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic works. See paragraph 1.E below.

1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the collection are in the public domain in the United States. If an individual work is unprotected by copyright law in the United States and you are located in the United States, we do not claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, displaying or creating derivative works based on the work as long as all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily comply with the terms of this agreement by keeping this work in the same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in a constant state of change. If you are outside the United States, check the laws of your country in addition to the terms of this agreement before downloading, copying, displaying, performing, distributing or creating derivative works based on this work or any other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning the copyright status of any work in any country outside the United States.

1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you’ll have to check the laws of the country where you are located before using this ebook.

1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not contain a notice indicating that it is posted with permission of the copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in the United States without paying any fees or charges. If you are redistributing or providing access to a work with the phrase “Project Gutenberg” associated with or appearing on the work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted with the permission of the copyright holder, your use and distribution must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm License terms from this work, or any files containing a part of this work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this electronic work, or any part of this electronic work, without prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with active links or immediate access to the full terms of the Project Gutenberg-tm License.

1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any word processing or hypertext form. However, if you provide access to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than “Plain Vanilla ASCII” or other format used in the official version posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon request, of the work in its original “Plain Vanilla ASCII” or other form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided that

1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread works not protected by U.S. copyright law in creating the Project Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic works, and the medium on which they may be stored, may contain “Defects,” such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by your equipment.

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1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth in paragraph 1.F.3, this work is provided to you ‘AS-IS’, WITH NO OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

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Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of electronic works in formats readable by the widest variety of computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm’s goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will remain freely available for generations to come. In 2001, the Project Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org

Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit 501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by U.S. federal laws and your state’s laws.

The Foundation’s principal office is in Fairbanks, Alaska, with the mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its volunteers and employees are scattered throughout numerous locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to date contact information can be found at the Foundation’s web site and official page at www.gutenberg.org/contact

For additional contact information:

Dr. Gregory B. Newby
Chief Executive and Director
gbnewby@pglaf.org

Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide spread public support and donations to carry out its mission of increasing the number of public domain and licensed works that can be freely distributed in machine readable form accessible by the widest array of equipment including outdated equipment. Many small donations ($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating charities and charitable donations in all 50 states of the United States. Compliance requirements are not uniform and it takes a considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up with these requirements. We do not solicit donations in locations where we have not received written confirmation of compliance. To SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state visit www.gutenberg.org/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition against accepting unsolicited donations from donors in such states who approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make any statements concerning tax treatment of donations received from outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation methods and addresses. Donations are accepted in a number of other ways including checks, online payments and credit card donations. To donate, please visit: www.gutenberg.org/donate

Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be freely shared with anyone. For forty years, he produced and distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility: www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, including how to make donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.

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